PERFORMANCE RECEPÇÃO LEITURA
Autor: Paul Zumthor
“[...] a idéia de performance deveria ser amplamente estendida; ela deveria englobar o conjuntos de fatos que compreende, hoje em dia, a palavra recepção, mas relaciono-a ao momento decisivo em que todos os elementos cristalizam em uma e para uma recepção sensorial – um engajamento do corpo.” (p.22)
“[...] coloco-me do ponto de vista do leitor, mais do que da leitura, no sentido em que esta palavra designa abstratamente uma operação. O que eu questiono é o leitor lendo, operador da ação de ler.” (p.29)
“Se um fato observado em performance é, por motivos práticos, transmitido, como objeto científico, por impressão ou conferência, então de maneira indireta e segunda, a forma se quebra. Neste sentido, a performance é para esse etnólogos uma noção central no estudo da comunicação oral.” (p.34)
“Muitas culturas através do mundo codificaram os aspectos não verbais da performance e a promoveram abertamente como fonte de eficácia textual.” (p.35)
“A performance de qualquer jeito, modifica o conhecimento. Ela não é simplesmente um meio de comunicação:comunicando ela o marca.” (p.37)
“Recorrer à noção de performance implica então a necessidade de reintroduzir a consideração do corpo no estudo da obra. Ora, o corpo (que existe enquanto relação, a cada momento recriado, do eu ao seu ser físico) é da ordem do indizivelmente pessoal.” (p. 45)
“Neste sentido, poesia e escrita tendem por meios não comparáveis, ao mesmo fim. É isso mesmo que funda aquilo que chamamos a literatura. Um encontro saboroso se produziu entre a linguagem poética e essa técnica extraordinária da escritura que ela encontrou em seu caminho.” (p. 58)
“A performance é então um momento da recepção: momento privilegiado, em que um enunciado é realmente recebido.” (p. 59)
“Não é menos verdade, no entanto, que toda leitura seja produtividade e que ela gere um prazer. Mas é preciso reintegrar, nesta idéia de produtividade, a percepção, o conjunto de percepções sensoriais. A recepção, eu o repito, se produz em circunstância psíquica privilegiada: performance ou leitura.” (p. 61)
“O eu só importa pelo que ele denota: a saber, que o encontro da obra e de seu leitor é por natureza estritamente individual, mesmo se houver uma pluralidade de leitores no espaço do tempo.” (p.64)
“O que nos fica é que essas variações históricas não concernem ao essencial. Transmitida a obra pela voz ou pela escrita, produzem-se entre elas e seu público, tantos encontros diferentes quanto diferentes ouvintes e leitores. A única dissimetria entre esses dois modos de comunicação se deve ao fato de que a oralidade permite a recepção coletiva.” (p. 65)
“Nesse sentido não se pode duvidar de que estejamos hoje no linear de uma nova era da oralidade, sem dúvida muito diferente do que foi a oralidade tradicional; no seio de uma cultura no qual a voz, em sua qualidade de emanação do corpo, é um motor essencial da energia coletiva.” (p. 73
“A performance é ato de presença no mundo e em si mesma. Nela o mundo está presente. Assim, não se pode falar de performance de maneira perfeitamente unívoca e há lugar aí para definir em diferentes graus, ou modalidades: a performance propriamente dita, gravada pelo etnólogo num contexto de pura oralidade; depois uma série de realizações mais ou menos claras, que se afastam gradualmente desse primeiro modelo.” (p. 79)
“ Na leitura, essa presença é por assim dizer colocada entre parênteses; mas subsiste uma presença invisível, que é manifestação de um outro, muito forte para que minha adesão a essa voz, a mim assim dirigida por intermédio do escrito (...)” (p. 80)
“A percepção é essencialmente presença. Perceber lendo poesia é suscitar uma presença em mim, leitor. Mas nenhuma presença é plena, não há nunca coincidência entre ela e eu. Toda presença é precária, ameaçada.” (p. 94)
“Nossos ‘sentidos’, na significação mais corporal da palavra, a visão, a audição, não são somente as ferramentas de registro, são órgãos de conhecimento.” (p.95)
“A imaginação, contrariamente ao ditado, não é louca; simplesmente, ela dês-razoa. Em vez de deduzir, do objeto com o qual se confronta, possíveis conseqüências, ela o faz trabalhar.” (p.124)
Comentário:
Partindo da idéia de performance, o autor sugere que a mesma seja uma um meio eficaz de comunicação, de aprendizagem, de recepção coletiva. A leitura, a escrita e a performance vão se entrecruzando no discurso do autor, onde ele ainda enfatiza a questão da importância de se disseminar a recepção teatral. Para Zumthor a palavra falada não é o mais importante ou mais eficaz para a análise e compreensão do espectador com relação a obra apreciada. O corpo em movimento, os gestos, as sonoridades expressam tanto quanto a fala.
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