BOLSISTA: CÁSSIA BATISTA DOMINGOS
Autor: Marcelo Gianini
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
“Em meu projeto de pesquisa que resultará na dissertação de mestrado Processos Contemporâneos de Criação como Prática Pedagógica (título provisório) ora em curso, que está sendo orientado pela professora doutora Ingrid Koudela, na ECA-USP, descreverei a experiência de 20 anos na coordenação de cursos de iniciação teatral, especificamente com alunos do Ensino Médio do Colégio Singular, de Santo André.”p.1
“A comunicação que se segue é fruto de minhas reflexões sobre o ensino de teatro a partir destas experiências pedagógicas tendo como base o pensamento filosófico de Gilles Deleuze.”p.1
“Segundo DELEUZE e GUATTARI (1992), o pensamento filosófico procura desacelerar as velocidades infinitas do caos para criar conceitos, conceitos que podem ser modificados, reconceituados.”p.1
“À arte não interessa mexer com as velocidades infinitas do caos, desacelerá-las. A arte emoldura o caos.”p.1
“Uma primeira questão que se coloca é: como ensinar arte? É possível ensinar como criar? Há uma fórmula? Como ensinar o desconhecido? Como ensinar a enfrentar o caos? Como entrar na Zona de Criação?”p.1
“Aprendemos através da experiência, e ninguém ensina ninguém. (...) Se o ambiente permitir, pode-se aprender qualquer coisa, e se o indivíduo permitir, o ambiente lhe ensinará tudo o que ele tem para ensinar.”(1979; 3) Como levar o aluno a esta Zona de Experiência? Talvez provocar seja o verbo mais interessante. Provocar no aluno a vontade, o desejo de entrar na zona de potência.”p.2
“Possibilidades de respostas podem ser dadas a começar por quem fará este processo de ensino. Será que uma pessoa sem experiência em criação artística, isto é, um não artista pode ensinar arte? Parece-me difícil, pois se essa pessoa não tem a experiência da criação de fissuras, como ensiná-las, como provocá-las? Um professor não artista talvez não tenha a experiência em se lançar na zona de turbulência. Ele pode até conseguir levar o aluno a esta zona, mas como ajudá-lo a formalizá-la, emoldurá-la, se ele não tem como compartilhar uma experiência similar?”p.2
“Por outro lado um artista que não tenha a capacidade de compreender e compartilhar suas experiências, sua descobertas, seus processos de criação também terá muita dificuldade em ser este provocador, este condutor de um processo artístico e pedagógico.”p.2
“O indivíduo mais interessante para esta tarefa me parece ser aquele artista que une as capacidades artísticas e pedagógicas. Artista e educador” p.2
“É uma formação que não passa somente pela Didática ou somente pela experiência artística. As duas têm que estar juntas, de mãos dadas, na mesma pessoa. Não falo aqui de uma competência adquirida por meio de conhecimentos enciclopédicos, falo de performance.”p.2
“Nesta trajetória de criação, como não repetir o caminho já conhecido? Como não cair no decalque de outros processos? Como não estratificar nossa performance, nossa criação?”p.3
“Como fugir da resposta única? Da forma única de fazer? Da forma única de enquadrar? Da maneira única de formalizar?”p.3
“Encontramos uma resposta possível no jogo. O jogo abre possibilidades de traçar novas linhas de fuga do próprio estrato teatral. O Jogo Teatral de Viola Spolin é privilegiado neste aspecto por trabalhar a partir da linguagem teatral. Ao propor um jogo de improvisação em que alguns elementos técnicos estão presentes (o Quem, o O Quê, o Onde e o Foco) e não deixar que os jogadores combinem previamente o Como, o Jogo Teatral cria a todo o momento novas possibilidades de solução, de jogo, de criação”.p.3
“Uma última questão: montar ou não um espetáculo teatral com alunos de iniciação teatral? E, depois, apresentar ou não este espetáculo?”p.3
“Talvez seja próprio da arte passar pelo finito para reencontrar e restituir o infinito.” (DELEUZE e GUATARI, 1992; 253) A produção do espetáculo é parte inerente do processo teatral. O teatro, efêmero e presencial por natureza, tem na apresentação do espetáculo uma parte do seu processo.”p.3
COMENTÁRIO:
O texto de Marcelo Gianini é um desencadeamento de reflexões sobre processo de ensino do teatro, tendo como referencia principal o pensamento filosófico de Gilles Deleuze. Inicialmente é levantada a questão: Como ensinar a criar? Então chega-se ao preceito de que não se ensina a criar, o aluno deve ser provocado à entrar em uma zona de criação, onde poderá desenvolver sua criatividade, mas como levar o aluno à esse lugar?
Nesse ponto o autor discute as funções do professor de teatro, aponta para a necessidade da experiência artística e da fundamentação pedagógica para a sua performance em sala de aula. Afinal, como mediar um processo de criação se o professor nunca tiver passado por algo similar e como compreender e conduzir o aluno a esse momento criativo sem uma base pedagógica que lhe dê a segurança do caminho a ser percorrido?
Da importância da apresentação de um produto fruto do processo o autor não discorda. Faz parte da experiência teatral o momento da apresentação ao público, é uma parte do todo da vivencia teatral. As reflexões sobre o processo criativo, tomado como prática pedagógica, levam a uma síntese de arte e educação almejada pelos professores de teatro em sua prática, de forma que os aspectos cênico e pedagógicos proporcionem crescimento aos alunos.
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