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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Fichamento 2


Teatralidade tátil: alterações no ato do espectador
DESGRANGES, Flávio
Pois a relação do espectador com o teatro está intimamente relacionada com a maneira, própria a cada época, de ver-sentir-pensar o mundo.
Os embates da nova forma dramática se colocam em consonância com as reivindicações da classe social que idealizava as transformações político-sociais em curso.
Além do que, a ampliação da condição de nobreza do herói pode significar a própria ampliação do alcance do teatro, que não precisa mais se restringir a um pequeno segmento da sociedade, mas pode interessar e atingir um vasto contingente da população.
O drama burguês utiliza deste potencial de aprendizagem, já presente nos efeitos de tragédia heróica, com o intuito de ampliá-lo (com adaptações), estabelecendo uma tensão entre a nova forma e os propósitos da burguesia em ascensão. A fábula deve servir como exemplo para a conduta na vida; um exemplo negativo, do qual se podem tirar lições.
A catarse aristotélica, por sua vez, passa a ser compreendida como vazão a sentimentalidade, a purgação entendida como correção pelas lágrimas.
A relação do espectador com a cena teatral se vê caracterizada por forte envolvimento emocional, marcada pela identificação irrestrita com o protagonista.
As peripécias do protagonista são cuidadosamente concebidas de maneira a produzirem importantes lições para o público.
Se na antiguidade o destino geria as peripécias dos heróis, em tempos iluministas, de constituição de sujeitos livres e de rompimento com a inexorabilidade das determinações divinas, a trajetória de cada ser humano precisa ser composta por seus próprios atos.
Impelido a se lançar na corrente da ação dramática, a mergulhar por inteiro no ambiente ilusório cuidadosamente criado pelo autor (que se faz ausente), o leito da cena observa esse mundo fictício sob o ponto de vista do protagonista.
O ato do espectador tem como eixo principal a própria imersão no mundo ficcional,
A explicitação do ato estético
O convite crítico reflexivo feito ao expectador, nesse caso, pode ser compreendido como um retorno freqüente à própria consciência, deslocando-se da pele do herói e reassumindo seu lugar de observador, seu ponto de vista, fora do mundo fictício, para, desse lugar que lhe é próprio, elaborar um juízo de valor acerca dos acontecimentos levados à cena.
O drama moderno, por sua vez, se vale de vários recursos cênicos narrativos, que se caracterizam pela sua assunção da teatralidade, e visam a ruptura com a ilusão do palco dramático.
Na cena moderna o autor se faz presente, revela soluções artísticas, expõe os recursos cênicos que utiliza em sua montagem, mostra sua concepção de teatro, assume posicionamentos críticos, e estimula o espectador a fazer o mesmo. Efetiva-se, assim, a noção de obra aberta, em que a ambigüidade das opções de linguagem, a multiplicidade de significados que convivem em um mesmo significante, constitui-se em ua importância destacada na proposta feita ao espectador.
Recepção Tátil
A memória, para o filósofo alemão, constitui-se justamente pelos fatos significativos que não foram filtrados pelo consciente e são lançados na profundeza da psique.
Somente uma recepção distraída, em que o consciente seja surpreendido, pego desatento, poderia se deixar atingir pelo instante significativo em que, na relação com o objeto, artístico, o olhar nos é retribuído, nos toca o íntimo e faz surgir o inadvertido, trazendo à tona experiências cruciais do passado.
[...] a experiência da arte não-aurática implica o espectador no ato artístico, em que a leitura só pode efetivar-se na própria produção do participante, impingindo-o uma atuação efetiva, já que passa necessariamente por suas entranhas.
Inversão Receptiva
[...] o objeto artístico é que invade o espectador, atingindo-o em seu íntimo, fazendo surgir sensações, percepções, imagens, entre outras produções, advindas da experiência pessoal do participante.
Nessa operação, o entendimento do que o autor quer dizer, a maneira como vê o mundo e estabelece uma síntese deste, está em primeiro plano. Ante a teatralidade pós-dramática, o espectador opera não-sobre, mas a partir do proposto pelo autor – ou mesmo para além dessa proposta -, e o que concebe, ainda que se dê em relação com o texto cênico, se constitui em face da impossibilidade de executar a tarefa de entender o que o autor quer dizer, pois não há uma síntese a ser desvendada, mas lances sensoriais, imaginativos e analíticos a serem desempenhados.
O espectador não pergunta “o que isso quer dizer?”, mas sim “o que está acontecendo
comigo?”

Comentário

Desgranges traça um linha do tempo a partir do século XVIII até a contemporaneidade explicitando a mudança da relação do espectador com a plateia, que esta vinculado à maneira própria de cada época, de ver-sentir-pensar o mundo.
Começando com o Drama Burguês, que está carregado de ideais iluministas, observamos a negação à corrente neoclássica anterior. O homem passa a ser então, o centro do pensamento e senhor de seu destino. O burguês passa a ser o herói do espetáculo, o que significa também uma ampliação do teatro, que passar a interessar a uma camada maior da sociedade. O burguês pode ser um herói, e não somente o nobre, como aconteciam nas tragédias anteriores. O espectador estava completamente mergulhado na cena. Um forte sentimento de empatia o faz confundir-se entre as peripécias do heróis e suas as suas próprias. O enredo, a ação dramática da peça é vista pelo espectador a partir do ponto de vista do protagonista. O drama, por tanto, tinha como caráter uma lição moral para o espectador.
O drama moderno surge em oposição a essa empatia.o expectador passa a ter momentos de retorno à consciência, sendo levado sempre a perceber que ali é uma encenação, e não uma vida real. Para isso, vários encenadores, como Brecht, não escondiam todo o maquinário cênico, fazendo o teatro se mostrar como tal. É nesse momento que surge uma obra aberta, onde o espectador pode por si só refletir sobre o que está vivenciando. O espectador ganha espaço para a construção de novos significados para o objeto artístico. E somente a partir deste estágio que a leitura do objeto só pode calcar-se na própria produção do participante, a partir os elementos propostos pelo autor.

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