Uma Incursão pela estética da recepção
MOSTAÇO, Edélcio
“ A recepção não é uma dimensão individual, mas um fenômeno coletivo, resultante das manifestações advindas das interpretações singulares e grupais, dimensionada através das práticas de leituras e agenciamentos históricos efetuados sobre textos e autores.”
“[...] a arte possui uma natureza singularmente histórica[...]”
“[...] há um horizonte de expectativas em torno da obra/artista [...]”
“[...] esse percurso pode ser objetivado temporalmente[...]”
“[...] para o preparativo do horizonte de expectativas sobre a obra, tanto no passado quanto no presente, a hermenêutica é o percurso interpretativo privilegiado pra a tarefa”
“Transitando pela semiótica, privilegiaram os aspectos interpretativos por ela ensejados, através de um cruzamento de preocupações voltadas à decifração e composição e à composição quer do texto quanto o espetáculo, deixando em segundo plano a mirada histórica que as dimensiona em seu meio.”
Uma virada
“O emergir, em sua fase heróica, a estética da recepção provocou vários abalos, especialmente por deslocar o eixo da discussão cultural, deixando privilegiar o processo interativo que se estabelece entre a obra e o leitor.”
“Já apontado por Jauss anteriormente, o prazer enfatizava a materialidade sensível do processo artístico, as constituintes intrínsecas à arte que, irredutíveis quando, da experiência estética, reverberam sobre o corpo de leitor espectador.”
“estabelecendo vários graus e modalidades de empatia, ele distingue, por exemplo, a atilada postura Brecht, salientando, como o dramaturgo alemão soube manipular ‘um reconhecimento do efeito e da recepção da obra literária’, ainda que orientando sua produção para a educação do espectador ao invés do prazer estético, transformando a empatia numa atitude reflexiva e crítica.”
Arte como fazer e receber
“A estética da recepção parte do pressuposto de que a arte é um fazer, uma construção e, como tal, infunde uma dada relação com o leitor/espectador.”
“Ao deslocarem o eixo analítico do produto para a recepção, os teóricos de Constança grifaram a função da leitura sob dois aspectos: a de horizonte de expectativa (que soma os códigos, preceitos, experiências sociais diversas e comportamento intuído pelos hábitos) e o de emancipação (a finalidade e o efeito proposto pela arte, liberando a fruição e articulando um novo universo sensorial.”
“Na acepção grega de fazer (poien), a poesis implica no prazer que sentimos como realizadores da obra (ou de sua leitura) [...]”
“A aisthesis, por sua vez, implica na dimensão de percepção reconhecedora ou do reconhecimento perceptivo, já apontado como ‘pura visibilidade’, ‘visão intensificada e sem conceito’, ‘da densidade do ser’, ‘pregnância perceptiva complexa’, segundo alguns autores que tentaram captá-la.”
“E a katharsis, conceito colhido de Aristóteles e Górgias, através do qual nos deixamos levar pelo engano ou artifício, participes de um jogo capaz de infundir quer uma liberação da psique quer uma mediação da apreensão que alivia o sujeito das normas da ação e julgamentos, acima dos interesses imediatos e implicações advindas do senso comum.”
Comentário
Edélcio começa o texto com uma citação de Ronald Barthes, onde o prazer de ler um livro foi tão estimulante que não foi possível concluir a atividade, dado o fluxo intenso de idéias que surgiram. E muito surgirá a partir do prazer de ler o objeto artístico.
Aqui a recepção não é colocada em uma dimensão individual, mas coletivo. acontece simultaneamente enquanto um grupo está lendo um objeto artístico e sofre interferência da época, da história de cada espectador. A recepção é um evento coletivo resultante das manifestações singulares e coletivas.
A recepção desloca então o eixo de compreensão do espetáculo, que não está no autor ou na obra, mas na relação que estes estabelecem com a plateia com suas amarras sociais. Sendo assim, o espectador passar a ser também um co-autor do objeto artístico.
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