A forma-ação do ator-professor: as intimações do imaginário na reeducação do sensível
Adriano Moraes de Oliveira
“A busca por novas formas fez com que os estudantes compreendessem o sentido de usar uma máscara diferente daquelas que habitualmente usam no dia a dia. Ao mesmo tempo, percebi que ao convocá-los para uma atuação dessa natureza seus corpos se tornaram mais vivos. Todos tiveram a mesma percepção; e mais, perceberam que a sensação de estar compondo a partir de outros referenciais provocava também uma maior liberdade imaginativa.” (p.1)
“São os limites que nos impomos que bloqueiam o processo criativo, porque a criatividade nunca é confortável (GROTOWSKI, 1992, p.204)” (p.2)
“A primeira questão foi entender como flagrar essa formação dos estudantes. Iniciei essa questão do sensível com algumas definições básicas: forma é estrutura; ação é movimento; ator é aquele que dá movimento à forma.” (p.2)
“A reeducação do sensível adquiriu, entre 2008 e 2009, uma conotação afim com as bases epistemológicas de meu projeto: o trabalho do ator sobre si mesmo que liga Stanislavski a Grotowski e a valorização das intimações do imaginário e das funções da
imaginação simbólica presentes nas teses de Gilbert Durand.” (p.2)
“A ideia de formação de um ator-professor apoia-se no fato de que o teatro é um campo pedagógico por excelência. O ator, tecnicamente preparado, ao atuar proporciona que o espectador se movimente em suas experiências pessoais. Nesse encontro entre o ator e o espectador, que é sustentado por um ato de doação do ator, podem ocorrer choques perceptivos, ocasionando, naturalmente, uma aprendizagem ao espectador.” (p.3)
“O treino não foi ligado diretamente aos exercícios públicos teatrais. Isso ocorreu porque o treino funcionou como aquele momento no qual um músico exercita sua técnica. O treino estimula a percepção das possibilidades de metamorfose: o que ouço? Com qual qualidade vejo o que me cerca cotidianamente? Quais as qualidades das diversas máscaras que povoam meus imaginários?” (p.4)
“A investigação é realizada em dois níveis de experimentos poéticos: um focado no trabalho do ator sobre si mesmo e o outro nas experiências com poéticas teatrais. O primeiro sugere a necessidade de controle e autoconhecimento; o segundo a necessidade de organização do teatro como um encontro.” (p.4)
“No processo de desnudamento, pelo qual precisa passar o ator-professor emminha proposta de reeducação do sensível, certamente essas intimações do imaginário agirão dialeticamente. É na linguagem que os imaginários podem ser surpreendidos. É também na linguagem que o sujeito pode ser flagrado. Constituímo-nos na linguagem e pela linguagem. E linguagem, seja ela de qual ordem for, é oriunda do imaginário, é estrutura imaginária.”(p.5)
Comentário
O artigo de Adriano Moraes relata um pouco da sua pesquisa de doutoramento, ainda não finalizada, que aborda o trabalho de formação de atores-professores. A experiência, narrada em primeira pessoa, tem um olhar bem particular do sensível no âmbito teatral e utiliza-se de autores como Stanislavski e Grotowski para fundamentá-la.
A pesquisa é justificada pelo fato de ser o Teatro um campo pedagógico, que tem viva a relação ator e espectador. Esta relação é muito semelhante a que existe entre o professor e o aluno, já que o ator doa seu conhecimento, assim como o professor, porém em forma de partituras corporais ou do próprio texto teatral e o espectador através das suas experiências pessoais reflete sobre o que está vendo gerando dessa forma a aprendizagem, assim como o aluno.
A escrita teatral na formação de professores
Alessandra Ancona de Faria
“Toma-se neste projeto a arte como meio de transformação e dentro deste entendimento, a presença da arte é fundamental para que, a formação permita vivenciar as relações entre o real e o imaginário, entre o real como está definido atualmente e a possibilidade de transformação desta realidade. A criação se dá através das formas que encontra, das soluções que irão se manifestar em uma forma determinada, que na arte se manifestará em diferentes linguagens. Criar é dar uma forma a alguma coisa, com diferentes meios e modos. (Ostrower, 1977)” (p.2)
“Embora a prática do jogo teatral já possa trazer por si mesma uma reflexão aprofundada, entendo ser importante uma sistematização destas experiências vivenciadas coletivamente, agora de forma também individualizada. Para tanto, proponho a utilização da escrita dramatúrgica.” (p.2)
“Para escrever uma peça de teatro, o professor terá que lançar mão de suas reflexões que partiram dos relatos das histórias de vida dos professores envolvidos no trabalho, além do seu próprio relato; e das improvisações que estes relatos suscitaram.” (p.3)
“As características diferenciadoras da escrita dramatúrgica como ferramenta para a formação continuada do professor sem a dissociação entre ação/reflexão ou teoria/prática, podem, em parte, ser elencadas no modo de caracterização da dramaturgia contemporânea que, segundo Ramirez (2004):
· O tempo e o espaço deixam de existir com uma relação de causa e efeito, de continuidade, passando a ser metafóricos, indefinidos e fragmentados.
· Enfraquecimento da personagem com função enunciadora, a palavra é mais um elemento simbólico.
· A fragmentação é característica tanto para a escrita como para a estrutura da peça.
· A intertextualidade, a apropriação de textos alheios.
· O hibridismo, tanto os gêneros como as linguagens artísticas se misturam.
· A imitação da realidade perde importância, uso da metalinguagem na estrutura da
fábula.
· O conteúdo é a unidade básica que sustenta a existência da narração.
Nesse sentido, a história de vida do professor passa a constituir a reflexão sobre seu trabalho docente, estabelecendo uma identificação entre estas histórias e a escrita teatral. Haveria desse modo, uma aproximação entre a escrita teatral contemporânea e o processo de trazer à memória que é ativada com relação aos acontecimentos passados: lembra-se aos poucos, lembra-se por pedaços, lembra-se com lacunas.” (p.3-4)
“Busco, nesta pesquisa, por um educador que pensa, planeja, executa, que reflete sobre suas ações, reconhecendo que de fato a sua construção pedagógica tem uma identidade, tem um jeito singular de ser, que é, afinal, o modo pelo qual concebe o mundo, as pessoas, as relações, a possibilidade de estar sendo e ocupando o seu lugar aqui, de uma ocupação que deixa marcas.” (p.4)
Comentário
O artigo de Alessandra Ancona parte da obervação a cerca das insatisfações dos professores em suas formações continuadas, que por muitas vezes se percebem como se estivessem ainda em formação inicial.
Visualizados os problemas a autora propõe a arte como meio de transformação, neste caso, a escrita teatral. Por meio de improvisações teatrais que antecedem a escrita os professores se setem parte de um coletivo e ajudam a construir r descontruir as histórias além de se apropriarem delas.
Saindo um pouco do coletivo e indo para o individual, os professores produzem as suas escritas dramaturgicas individualmente com base nas suas próprias vivências e naquilo que foi experienciado coletivamente. Neste processo o educador percebe a singularidade da sua construção pedagógica e as mudanças que os mesmos causam em muitas outras vidas.
“Corações e Mentes: Um estudo acerca das possibilidades de relações dos jovens e o teatro”
Aline Cristiane Grisa
“Assim, o jovem é um dos assuntos mais freqüentes na sociedade contemporânea, entretanto, nos estudos e escritos especificamente teatrais não encontramos quase nenhum enfoque de pesquisa preocupado ou direcionado para este grupo particular, porém, em outras áreas do conhecimento estes estudos encontram-se mais avançados e serão utilizados aqui como trampolim para novos questionamentos.” (p.1)
“...José Machado Pais […] este grupo não forma um todo coeso e homogêneo, não podendo ser agrupados apenas por pertencer a uma “fase da vida”, ou seja, possuir a mesma faixa etária, como um grupo de sujeitos que antecede a entrada no mundo adulto. (2003)” (p.1)
“...através da análise do cotidiano, busca-se quais são e em que se fundamentam os processos de constituição das culturas juvenis, tornando-se necessário verificar se o teatro aparece dentro das práticas culturais exercidas pelos jovens contemporâneos e como se dá tal relação.” (p.1)
“Ora, se é apenas um espaço vazio, preenchido unicamente por um agente e um espectador que, segundo Brook, constituem a condição suficiente para que surja um fenômeno novo através do qual pode-se dar asas ao imaginário, então poderia ser, o teatro, o espaço de manifestação mais propício para o jovem?” (p.2-3)
Comentário
Aline Cristiane inicia o artigo trazendo diversos conceitos sobre o que é juventude através do ECA e suas extensões. Ela escolhe a definição que elege a juventude dos 12 aos 29 anos para sua pesquisa.
Neste artigo a autora questiona mais sobre a relação do jovem com o Teatro, do que propõe respostas.
A Prática Extensionista na Formação de Professores de Teatro
Prof. Dr. Arão Paranaguá de Santana
“O presente trabalho se traduz na descrição e análise do projeto de extensão Ação Cultural em Teatro, desenvolvido em diversos bairros de capital maranhense, em 2007, envolvendo a parceria entre sujeitos – estudantes, professores, jovens e adultos provenientes de comunidades culturais e grupos artísticos –, instituições escolares, entidades informais e outras que se propõem à lida com arte e cultura.” (p.1)
“Esse envolvimento discente em atividades de abrangência comunitária contribuiu de maneira singular para a sedimentação do princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, cuja meta remete-se à democratização do saber acadêmico e à promoção de mudanças significativas no processo pedagógico vivenciado pelos diversos atores sociais.” (p.1)
“Em primeiro lugar insere-se a questão do protagonismo, atitude que, nos dias correntes, não tem sido uma tônica que personifica os sujeitos que atuam na lida acadêmica, sejam eles professores ou estudantes. Neste caso, o gestus protagonista – para usarmos uma imagem brechtiana – demonstrou ser a alavanca essencial para a impulsão da jornada. Afinal, os discentes participaram porque estavam inscritos na disciplina Prática de Extensão; não contaram com recursos financeiros nem materiais fornecidos pelas instituições envolvidas em 2007; tiveram que negociar, eles próprios, parcerias e adesões... mas, no fim das contas, realizaram as tarefas a contento!” (p.2)
“Para a consolidação de práticas extensionistas vinculadas a uma formação de qualidade torna-se imprescindível o envolvimento político-institucional da Universidade, através de um apoio concreto e não somente uma intenção no papel, propiciando a continuidade de projetos dessa natureza. Neste sentido, visando encaminhar uma contribuição concreta, está sendo desenvolvida a pesquisa “A prática como componente curricular na formação de professores de teatro – análise de experiências extensionistas na UFMA”, sob a coordenação do autor.”(p.3)
Arão Paranaguá através deste artigo deixa claro a importância da prática extensionista na formação do professor de Teatro. Ele alerta para a necessidade de apoio não somente institucional, mas também da própria comunidade que receberá os graduandos.
Como resultado parcial e positivo do projeto Ação Cultural em Teatro os alunos alcançaram um nível de protagonismo em suas atitudes e posicionamentos dentro da universidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário