“As mudanças arquitetônicas dos espaços destinados às encenações teatrais, especialmente no que se refere aos palcos e às platéias, que tiveram início com as encenações de tragédias e comédias gregas continuam se desenvolvendo e se modificando até hoje.” P. 178.
"A estrutura das artes cênicas, desenvolvida pelos gregos, determinou os princípios básicos da relação espetáculo/espectador que vigoram até hoje principalmente no que se refere à arquitetura teatral." P. 178.
As transformações promovidas pelo teatro romano já vinham carregadas de aproximações da relação palco/platéia e já denunciavam o grau de sedução e provocação que um exercia sobre o outro e vice-versa. P. 179.
Uma ilustração da biblioteca de arsenais em Paris, datada do início do século XV, descreve uma disposição circular, porém diferente do modelo grego: em um púlpito coberto, Calliopius (espécie de ator da época) lia textos dramáticos, enquanto sua narração era acompanhada pela pantomima dos joculatores mascarados e por flautistas. O público, em pequeno número, se acomodava em torno do púlpito, numa atmosfera bem intimista. P. 179.
Mas o período renascentista não experimentaria apenas este tipo de construção [frontal], que poderia ser considerada ‘ingênua’, principalmente se comparada à estrutura grega/romana de disposição palco/platéia. P. 179.
Os teatros londrinos que abrigavam as encenações de Shakespeare e de seus contemporâneos, como se pode verificar atualmente no reconstruído Globe-Theatre, seguiu a tendência já estruturada pelos palcos do Castelo da Moralidade, mas substituiu a forma circular pela forma octogonal. P. 179.
Os palcos ingleses eram divididos em céu, terra e inferno, localizados em diferentes níveis espaciais e em diferentes galerias. Igualmente complexa era a distinção das diferentes galerias na platéia, obedecendo a certa hierarquia, com lugares específicos para jovens, mulheres, intelectuais, etc. p. 179.
Mas como alguns historiadores advertem, tal estrutura permitia ao público ver e ser visto, o que consiste num importante aspecto: paro[a] os espectadores, assistir ao que se passava em cena era tão importante quanto assistir a sua própria participação, a sua própria reação. P. 184.
Mas o ‘palco italiano’, como hoje é conhecido não tardaria a aparecer: Sua estrutura já vinha se esboçando através da disposição da confrontação, mas só se consolida na era barroca. P. 184.
A aristocracia do período de Luís XIV impunha, assim, um conceito de disposição e comportamento muito distante dos praticados no período shakespeariano, no qual as platéias manifestavam-se com total liberdade e veemência. P. 185.
Contribuindo para a consolidação do ‘palco italiano’, a casa de ópera de Viena, de 1668, foi construído com o objetivo de se tornar o teatro imperial do mundo. P. 185.
O palco de grande profundidade e largura permitia a presença de até mil atores em cena e a troca de cinco cenários, como é descrito nos registros da encenação da ópera Pomo d’Ooro, de Cesti, com decoração (cenografia) de Burnacini, que inaugurou o teatro. Para o imperador, entusiasta do teatro, ao invés do camarote comumente construído ao lado do proscênio, ergueu-se um pódio elevado na primeira fila, que por sua vez estava localizado mais próximo ao palco, encurtando assim a distância física entre palco/platéia. P. 185.
No período rococó, os teatros, além de contarem com a ação dos pintores da época – seguindo a tendência decorativa do período barroco, porém amenizada – outras importantes modificações são verificadas, com o desenvolvimento de teatros em forma de ferradura ou de sinos, e a consolidação da aproximação entre palco/platéia que algumas construções do período barroco já haviam esboçado. P. 185.
O público vai retomando assim a sua participação: volta a se manifestar com entusiasmo durante e após as apresentações; conquista preços menores para os ingressos através de reivindicações; passa a eleger determinados intérpretes privilegiando suas apresentações; impõe co autonomia seus desejos. P. 185.
Alguns autores associam o início da redemocratização do teatro ocidental a esse período, quando as arquiteturas teatrais passaram a abrigar um público predominantemente burguês. Eles passaram a exigir boa visão e boa acústica, o que até então tinha sido privilégio de poucos nas construções antigas. P. 186.
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