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sexta-feira, 25 de março de 2011

Flávio Desgranges e Edélcio Mostaço discutindo sobre Recepção

Bolsista: Taiana Lemos

Flávio Desgranges propõe uma discussão sobre as mudanças do papel do espectador diante das alterações teatrais ocorridas ao longo do tempo.Faz uma abordagem sobre as propostas lançadas ao espectador do drama burguês e no drama moderno. Depois,analisa as implicações da cena contemporânea em relação a ampliação de compreensão da ação do espectador.São levantados questionamentos referentes à influência dos acontecimentos históricos na dinâmica de produção teatral, e consequentemente na influência ao espectador, O ESPECTADOR é o foco de suas argumentações.
O autor Edélcio Mostaço propõe uma discussão acerca das diferentes concepções e teorias sobre a recepção, citando diversos autores e seus pontos de vista. Mostaço lança questionamentos em relação as inúmeras possibilidades de discussão estética sobre a recepção, afirmando ser um campo que em meio a muitas pesquisas, “ainda não desenvolveu todas as suas potencialidades entre nós”.Enfoca sua discussão nos conceitos e características da poiesis, da aisthesis e da khatarsis.

Teatralidade tátil:alterações no ato do espectador

Flávio Desgranges


“ a relação do espectador com o teatro está intimamente ligada relacionada com a maneira, própria a cada época, de ver-sentir-pensar o mundo” (p.1)

“ O drama surge como crítica ao existente, valendo-se de argumentos e soluções formais que mantêm em tensão as naturezas política e poética de seus princípios” (p.2)

“ segundo a astuta argumentação de Lillo, não é o burguês que depende do teatro, mas o teatro que depende do burguês.” (p.2)

“ O drama burguês utiliza—se deste potencial de aprendizagem, já presente nos efeitos da tragédia heróica, com o intuito de ampliá-lo (com adaptações),estabelecendo uma tensão entre a nova forma e os propósitos da burguesia em ascensão” (p.2)

“ A catarse aristotélica por sua vez, passa a ser compreendida como vazão a sentimentalidade, a purgação entendida como correção pelas lágrimas.” (p.3)

“ A relação do espectador com a cena teatral se vê caracterizada por forte envolvimento emocional, marcada por identificação irrestrita com o protagonista” (p.3)

“As peripécias do protagonista são cuidadosamente concebidas de maneira a produzirem importantes lições para o público” (p.3)

“ A comoção vivida pelo personagem precisa ser cuidadosamente construída, de modo que o público possa acompanhar o herói.Somente dessa maneira se pode provocar o almejado impacto emocional capaz de “transtornar” o espectador.” (p.3)

“ O palco dramático se apresenta como uma representação sintética da vida social, como um universo fechado concebido diante do espectador, que observa esse pequeno mundo de esguelha, como se não estivesse ali.” (p.3)

“O ato do espectador tem como eixo principal a própria imersãono mundo ficcional.O modo de concepção das obras de arte, em consonância com o modo de compreensão do ato de leitura, indica a busca por intensificar a atividade do espectador, partindo dos próprios parâmetros de recepção estética em voga no período.” (p.4)

A explicitação do ato estético

“O drama moderno surge como oposição a essa empatia por abandono (Brecht,1978) estabelecida pelo drama burguês.” (p.4)

“O drama moderno, por sua vez, se vale de variados recursos cênicos narrativos, que se caracterizavam pela assunção da teatralidade, e visam a ruptura com a ilusão do palco dramático.” (p.4)

“As brechas no mecanismo dramático rompem com a ficcionalidade irrestrita e expulsam o espectador da vivência interior da obra, lançando-o de volta à própria consciência, convidando-o a desempenhar um ato propriamente estético, reflexivo.” (p.4)

“Esses movimentos de ir e vir do espectador-que, por empatia com o protagonista, adentra no interior da obra ficcional,e, ante as interrupções da lógica dramática operadas pelos recursos cênicos narrativos (épicos), se distancia da ação dramática, e retorna à própria consciência para empreender um ato propriamente autoral e analítico- caracterizam o efeito estético proposto pelo drama moderno.” (p.4)

“ na cena moderna o autor se faz presente, revela as soluções artísticas, expõe os recursos cênicos que utiliza em sua montagem, mostra a sua concepção de teatro, assume posicionamentos críticos, e estimula o espectador a fazer o mesmo.” (p.4)

“ A teatralidade assumida rompe com a ilusão do mundo-palco, propondo que o espectador se distancie da ficcionalidade, se descole da pele do herói e retorne à própria consciência.” (p.5)

A recepção tátil

“ [...] a recepção tátil se efetiva de modo inverso ao da recepção contemplativa, pois, ao invés de convidar o espectador a mergulhar na estrutura interna da obra, faz emergir o objeto artístico no espectador, atingindo-o organicamente - daí a noção de tátil” (p.6)

“ O objeto como que avança sobre o indivíduo, toca-lhe o íntimo e, de maneira inesperada, faz surgir conteúdos esquecidos, relacionados com a memória involuntária,” (p.6)

“O encontro com a arte se coloca, desde então, para Benjamin,fundamentalmente vinculado com a proposição e a produção de experiências.” (p.6)

“Se a experiência aurática da arte tradicional estava calcada no mergulho no interior da obra, a experiência da arte não-aurática implica o espectador no ato artístico, em que a leitura só pode efetivar-se na própria produção do particpante, impingindo-o a uma atuação efetiva, já que passa necessariamente por suas entranhas.” (p.7)

A inversão perceptiva
“ No teatro pós-dramático, o que se observa [...] é uma inversão travada entre espectador e proposta cênica.” (p.8)

“ O espectador desempenha o ato de leitura valendo-se, tanto da análise de elementos de significação oriundos do texto cênico proposto pelo autor, quanto de conteúdos outros, percebidos, lembrados e criados durante seu percurso de leitura.” (p.8)

“ Ante a teatralidade pós-dramática, o espectador opera não sobre, mas a partir da proposta do autor- ou mesmo para além da proposta- e o que concebe,ainda que se dê em relação com o texto cênico, se constitui em face da impossibilidade de executar a tarefa de entender o que o autor quer dizer, pois não há uma síntese a ser desvendada, mas lances sensoriais, imaginativos e analíticos a serem desempenhados.” (p.8)


Uma incursão pela estética da recepção

Edélcio Mostaço


“ Tendo como expoentes mais notórios Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser( assim como Karlheinz Stierle e Hans Ulrich Gumbrecht), a estética da recepção cosntituiu-se num tourning point em relação aos estudos literários e – por extensão – aos demais formatos artísticos e culturais que giram em torno da mimesis, da narração” (p.1)

“ Tais eixos envolvem diversos procedimentos internos, responsáveis pela criação de um método investigativo. A partir de três ângulos privilegiados- a poesis, a aisthesis e a katharsis- percorrendo o processo dialógico que envolve o artista e o espectador, fica claro que, mesmo dispensando ênfase à estrutura de significados e interações comunicativas advindas com a obra, a estética da recepção é uma operação comprometida com o processo artístico.” (p. 2)

“ No campo teatral, foram franceses e italianos que se responsabilizaram por sintonizar mais detalhadamente os pressupostos da recepção: Marco de Marinis, Anne Ubersfeld e Patrice Pavis, dedicando ensaios diversos à multiplicidade de aspectos por ela abarcados.” (p.2)

Uma virada

“ Ao emergir, em sua fase heróica, a estética da recepção provocou vários abalos, especialmente por deslocar o eixo da discussão cultural, deixando de privilegiar o autor e seu universo para ressaltar o processo interativo que se estabelece entre a obra, o leitor e o fundo social circundante.” (p.2)

“ O pós estruturalismo, o desconstrucionismo, as novas plataformas analíticas que tomaram conta do ambiente intelectual mundial foram encorajadas, a partir dos anos de 1980, pela estética da recepção, infundindo cores e acentos diversos à visada analítica, consonates com sua natureza múltipla e pluralista. Onde ela serviu de referência para incursões que lançaram novos olhares sobre o presente e o passado cultural.” (p.3)

Polêmicas e aproximações

“ O objeto da arte, tal como qualquer outro produto, cria um público capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto, a produção não cria somente um objeto para sujeito, mas também um sujeito para o objeto” ( Marx,1973,p.116) “ (p.3)

“ Entre outros procedimentos, Jauss recuperou a aristotélica khatarsis enquanto dimensão comunicativa subjacente à obra artística, salientanda como esfera onde os fenômenos de identificação e empatia vão produzir-se.” (p.4)

Arte como fazer e receber

“A estética da recepção parte do pressuposto de que a arte é um fazer, uma construção e, como tal, infunde dada elação com o leitor/espectador.”(p.4)

“ Mesmo proposestéticas que almejam o distanciamento, o estranhamento, a ironia (como dadísmo, o surrealismo ou Brecht) necessitam partir, no plano da experiência, de uma identificação inicial.” (p.5)

“ Na acepção grega de fazer (poien), a poiesis implica no prazer que sentimos como realizadores da obra (ou de sua leitura), enquanto instância de instalação e apropriação do mundo esterior ( “ sentir-se em casa”, nas palavras de Hegel), através da qual se alcança um conhecimento diverso daquele infundido pela ciência e mais amplo que aquele dirigido à finalidade produtiva, caso do artesanato.” (p.5)

“ A aisthesis, por sua vez, implica na dimensão de percepção reconhecedora ou de reconhecimento perceptivo,já apontado como “pura visibilidade”, “ visão intensificada e sem conceito”, “ da densidade do ser” “pregnância perceptiva complexa” segundo alguns autores que tentaram captá-la.” (p.5)

“ E a katharsisI ,conceito colhido em Aristóteles e Geórgias, através do qual nos diaxamos levar pelo engano ou artifício, partícipies de um jogo capas de infundir quer uma liberação da psique quer uma mediação de apreensão que alivia o sujeito das normas de ação e julgamentos, acima dos interesses imediatos e implicações advindas do senso-comum.” (p.5)

“ Atuando concomitantemente e podendo reverberar ao longo do tempo, as três instâncias da experiência estética são subjetivas e inter-subjetivas, não obedecendo a uma hierarquia de camadas ou importância e implicando numa relação de autonomia uma em relação às demais, aprersentando-se seqüenciais ou não.”(p.5)

“ Jauss destaca algo importante: ‘ a função comunicativa da experiência estática não é necessariamente mediada pela função catártica.Também pode decorres da aisthersis, quando o observador, no ato contemplativo renovante de sua percepção, compreende o percebido como uma informação acerca do mundo do outro, ou quando, a partir do juízo estético, se apropria de uma norma de ação.” (pp.5 e 6)

Aprender ou interpretar

“ [...] a recepção, na atualidade, diz respeito a um sem número de agenciamentos no vasto território da cena, apresentando subsídios quer para a pedagogia quer para a história, quer para a sóciosemiótica quer para a aálise dos discursos, fomentando plataformas que estão alargando os estudos teatrais.” (p.8)

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