Fichamento II
Por: Adiel Alves
Texto: Teatralidade tátil: alterações no ato do espectador
Autor: Flávio Desgranges
“... a relação do espectador com o teatro está intimamente relacionada com a maneira, própria a cada época, de ser-sentir-pensar o mundo”. (p.01)
“A produção teatral pode ser considerada, desde então, não como obra, mas como objeto artístico, passando a assumir função social bastante diversa daquela compreendida até então”. (p.01)
“A noção, largamente difundida então, de que a poesia dramática se caracterizaria pelo ensinamento que pode proporcionar aos espectadores, que poderiam aprender com os erros cometidos pelo herói, advém já de uma reinterpretação de Aristóteles realizada pelos teóricos renascentistas”. (p.02)
“A catarse aristotélica, por sua vez, passa a ser compreendida como vazão à sentimentalidade, a purgação entendida como correção pelas lágrimas”. (p.03)
“O Drama burguês, surgido em tempos de afirmação do núcleo familiar, faz das reprimendas de conduta seu efeito primordial. Como destaca Lillo, “convém ao palco” alertar a juventude “dos vícios destrutivos”. (p.03)
“A relação do espectador com a cena teatral se vê caracterizada por forte ficção irrestrita com o protagonista. Colado à pele do herói, cada indivíduo da platéia vivencia os acontecimentos que constituem a sua trajetória: suas dores, sofrimentos, agruras, e também suas alegrias, descobertas, resoluções”. (p.03)
“O drama burguês se compões a partir da “psico-lógica”, em que a constituição dos aspectos individuais torna-se eixo para a composição da lógica das ações”. (p.03)
“O ato do espectador tem como eixo principal a própria imersão no mundo ficcional. O modo de concepção das obras de arte, em consonância com o modo de compreensão do ato de leitura, indica a busca por identificar a atividade do espectador, partindo dos próprios parâmetros de recepção estética em voga no período. (p.04)
“O drama moderno, por sua vez, se vale de variados recursos cênicos narrativos, que se caracterizam pela assunção da teatralidade, e visam a ruptura com a ilusão do palco dramático”. (p.04)
“Ao contrário daquela teatralidade surgida em consonância com os princípios burgueses, na cena moderna o autor se faz presente, revela as soluções artísticas, expõe os recursos cênicos que utiliza em sua montagem, mostra a sua concepção de teatro, assume posicionamentos críticos, e estimula o espectador a fazer o mesmo”. (p.04)
“A cena moderna não inviabiliza, pois, a identificação do espectador com o protagonista, mas quer impedir que a empatia e o mergulho no universo ficcional se dêem de maneira abandonada, sem retorno reflexivo”. (p.05)
“... a recepção tátil se efetiva de modo inverso ao da recepção contemplativa, pois, ao invés de convidar o espectador a mergulhar na estrutura interna da obra, faz imergir o objeto artístico no espectador, atingindo-o originalmente – daí a noção de tátil. O objeto como que avança sobre o indivíduo, toca-lhe o íntimo e, de maneira inesperada, faz surgir conteúdos esquecidos, relacionados com a memória involuntária”. (p.06)
“Somente uma recepção distraída, em que o consciente seja surpreendido, pego desatento, poderia se deixar atingir pelo instante significativo em que, na relação com o objeto artístico, o olhar nos é retribuído, nos toca o íntimo, e faz surgir o inadvertido, trazendo à tona experiências cruciais do passado”. (p.06)
“A imagem mnêmica se constitui de lembranças que surgem espontaneamente, sem a vontade e o controle do sujeito. Trata-se, portanto, de imagens que o indivíduo não escolhe, que não se relacionam com a memória voluntária, o contrário de um processo consciente de rememoração”. (p.07)
“O movimento do espectador no drama se volta para a interpretação da cena apresentada, em que se debruça sobre a mesma, e tece associações entre fatos históricos, obras artísticas anteriores, acepções teóricas, momentos vividos, e organiza uma compreensão própria da obra”. (p.08)
“Ante a teatralidade pós-dramática, o espectador opera não sobre, mas a partir da proposta do autor”. (p.08)
Texto: Uma incursão pela estética da recepção
Autor: Edélcio Mostaço
Por: Adiel Alves
““ Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com freqüência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de idéias, excitações, associações?”
(Roland Barthes, O rumor da língua).”
“A recepção não é uma dimensão individual, mas um fenômeno coletivo, resultante das manifestações advindas das interpretações singulares ou grupais, dimensionada através das práticas de leitura e agenciamentos históricos efetuados sobre textos e autores”. (p.01)
“No campo teatral, foram franceses e italianos que se responsabilizaram por sintonizar mais detalhadamente os pressupostos da recepção: Marco de Marinis, Anne Übersfeld e Patrice Pavis, dedicando ensaios diversos à multiplicidade de aspectos por ela abarcados. Transitando pela semiótica, privilegiaram os aspectos interpretativos por ela ensejados, através de um cruzamento de preocupações voltadas à decifração e à composição que do texto quanto do espetáculo, deixando em segundo plano a mirada histórica que as dimensiona em seu meio”. (p.02)
“Ao emergir, em sua fase heróica, a estética da recepção provocou vários abalos, especialmente por deslocar o eixo da discussão cultural, deixando de privilegiar o autor e seu universo para ressaltar o processo interativo que se estabelece entre a obra, o leitor e o fundo social circundante”. (p.02)
““A dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopéia estão ligadas a certas formas de desenvolvimento social. A dificuldade reside no fato de nos proporcionarem ainda um prazer estético e de terem para nos, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos inacessíveis” (Marx, 1973, p. 131; grifos meus)” (p.03)
“Além da fenomenologia de Hussel e da hermenêutica proposta por Gadamer, Jauss recuperou a teoria de Paul Valéry, exposta num estudo sobre Leonardo da Vinci, onde uma estética produtiva, apoiada na função cognitiva da construção do sentido, distingue entre o conhecimento conceptual (ver pelos intelecto) daquele propiciado pela arte (ver pelos olhos), abrindo-se para o campo da experiência”. (p.04)
“A estética da recepção parte do pressuposto de que a arte é um fazer, uma construção e, como tal, infunde uma dada relação com o leitor/espectador”. (p.04)
“Roman Ingarden, ao discorrer sobre a fenomenologia da obra literária, proverá o conceito de concretização – a cota de participação do leitor ao conferir significados ás indeterminações da escritura –, destacando que a mesma articula uma estrutura de apelo em direção ao leitor”. (p.05)
“Essa fronteira cognitiva, saber - falso / crer-verdade, que marca a separação entre o interior e o exterior do teatro, [...] é a mesma que estabelece a diferença intrínseca e substancial entre as emoções estéticas reais e a emoções teatrais”. (p.06)
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