Disposição do palco/platéia ao longo da história; Lugar e papel do expectadorSOARES, Luiz Cláudio Cajaiba
"A estrutura das artes cênicas, desenvolvida pelos gregos, determinou os princípios básicos da relação espetáculo/espectador que vigoram até hoje, principalmente no que se refere à arquitetura teatral."
"Concebido de forma circular na Grécia, onde a platéia ocupava três terços deste círculo, as construções dos teatros romanos reduziram a platéia a um semicírculo.”
“As transformações promovidas pelo teatro romano já vinham carregadas de aproximações na relação palco/platéia e já denunciava o grau de sedução e provocação que um exercia sobre o outro e vice-versa.”
“De 1584, em Veneza, na Itália, o Teatro Olímpico reflete a estrutura dos teatros romanos, mas com auditório oval, ricos em portais, orchestras utilizados por músicos, paredes do palco arquitetadas em três níveis, teto com nuvens pintadas para lembrar os teatros abertos e iluminação natural através das janelas de fundo.”
“Também com lugares especiais destinados à nobreza, o público comum era mantido à distância [...]”
“Igualmente complexa era a destinação das diferentes galerias na platéia, obedecendo a certa hierarquia, com lugares específicos para jovens, mulheres, intelectuais, etc.”
“Mas como alguns historiadores advertem, tal estrutura permitia ao público ver e ser visto, o que consiste num importante aspecto: para os espectadores, assistir ao que se passa em cena era tão importante quanto assistir a sua própria participação, a sua própria reação.”
“A manifestação da platéia formada pelos não nobres, muitas vezes deveria estar de acordo com a reação dos nobres.”
“[...] a construção de teatros com menor capacidade de público imprime uma atmosfera mais intimista e, em alguns teatros particularmente, se restabelece a proximidade entre palco e platéia, outrora praticada, como nesta visão de um teatro espanhol, da metade do século XVIII.”
“Os experimentos outrora recebidos com estranhamento e curiosidade pelo público iam tornando comuns e ganhando aceitação. Dessa forma o espectador contemporâneo herdou uma gama de possibilidades que o permite permanecer em seu estado ‘letárgico’ através da fruição de encenações consideradas tradicionais, ou ser completamente arrebatado, mobilizado, provocado, através de encenações investigativas/experimentais.”
“A relação espetáculo/espectador no teatro segue sempre recheada de inovações. E assim como reflete os acontecimentos mais remotos, deixa-se também seduzir pelas demandas da contemporaneidade.”
Atmosfera e recepção numa experiência com teatro na Alemanha
SOARES, Luiz Cláudio Cajaiba
“Tratar de recepção do teatro remete às origens deste fenômeno, localizadas pelas referências históricas na Grécia, especificamente na noção de catarse identificada na obra de Aristóteles.”
“Esse universo metafórico abre precedentes para a nova metaforização, fazendo com que um mesmo drama se transforme em tantos outros, com que atmosferas sejam reconstituídas de modo diferentes, como será discutido adiante.”
“Pode-se também inferir que ela crê na platéia como agente – como defenderam vários encenadores e teóricos do teatro que têm se dedicado à recepção.”
“Para que as coisas e o teatro deixem de ser vistas por pessoas razoáveis, é preciso que o discurso sobre eles também deixe de ser ‘razoável’. É preciso que a recepção seja vista como livre de amarras impostas pelo romantismo, que pressupõe o artista genial e o receptor ignaro.”
“Como advertiu Hans-Thyes Lehmann, ‘essa é uma questão central para as artes cênicas, já que nos acostumamos a pensar com conceitos, esquecendo-se que pintar, dançar, representar é também uma forma de pensar.”
“Mesmo partindo-se do pressuposto de que ‘toda atmosfera é imprecisa em relação ao seu status ontológico’. Isso significa dizer que mesmo essa descrição conterá ainda a imprecisão e que uma descrição, onde estão implicados sujeitos e objetos, sempre parecerá nebulosa e carente de uma complementação pelo sentir. Por isso clama por um redimensionamento, por uma rearticulação do uso do termo atmosfera e propõe que o ‘conceito de atmosfera enquanto conceito de Estética deve unir os diferentes usos do cotidiano aos seus diferentes caracteres’.”
“Uma nova estética, assim, poderá ser formulada de três modos: (i) ‘A estética até então predominante é uma estética do juízo, ou seja, uma estética que não trata da experiência, ou da experiência sensitiva, como o termo designava em sua origem grega’. [...] (ii) Este lugar do julgamento passou a ser central na teoria estética, com uma predominância para o domínio lingüístico e, hoje em dia, para o domínio da semiótica. Essa estética ‘de modo algum, deixa evidente que um determinado artista, com sua obra, queira compartilhar algo com um possível observador’. [...] (iii) Walter Benjamin se refere, com seu conceito de aura. A uma atmosfera de distância e de apreciação, que uma obra original proporciona. ‘Ele pretendia, com este conceito, fazer uma distinção entre uma obra original e sua reprodução, e acreditava num desenvolvimento próprio da arte que eliminasse essa noção de aura’,o que seria possível com a expansão da reprodução através os novos meios de comunicação.”
Comentário
O autor faz uma abordagem acerca das transformações do espaço cênico (palco/platéia) a as transformações das relações de poder que eram intensificadas ou negadas a partir das alterações na arquitetura do edifício teatral. É importante pensar também a partir de quando o teatro foi mais acessível e quando o espectador deixou de ser tido como passivo e passa a ser parte da construção da obra de arte. A depender do espaço teatral e da proximidade com o público com a cena, o espectador pode ou não estar mergulhado na ilusão do espetáculo, na atmosfera.
Nenhum comentário:
Postar um comentário