“Apesar do considerável avanço efetuado nos últimos tempos pelos estudos teatrais, as perspectivas nos escritos sobre recepção permanecem mais defendidas do que desenvolvidas.”
O autor faz uma crítica ferrenha abordagem dos escritos na área de recepção teatral, em especial, sobre conceituação dos vocábulos concretização e recepção.
“ Ao menos no campo teatral, recepção e concretização, enquanto termos empregados pelas teorias da recepção mostraram-se inapropriados para os princípios de origem aos quais se vinculavam. O vocábulo recepção fortemente marcado pela teoria da informação parecia contradizer a atividade produtiva do espectador, a concepção de que, em seu processo de apreensão, ele não apenas ‘recebe’, mas é o corresponsável pelos sentidos da obra. Concretização, por sua vez, deixou simplesmente de corresponder ao processo de interpretação do leitor, e precisou ser diferenciada da concretização cênica, realizada pelos produtores do espetáculo.”
“Não demorou para a semiótica eleger o texto espetacular como seu principal objeto de estudo, em detrimento da ultrapassada visão de espetáculo, que nunca dera conta atividade do público. Posteriormente, a noção abstrata e teórica de um espectador idealmente pensado foi substituída por um espectador de carne e osso.”
O abandono da idéia do espectador ideal e esperado, por um espectador ao vivo e a cores.
“[...] ainda distante das investigações empíricas sobre espectadores vislumbrarem conclusões relevantes, as particularidades da arte teatral exigiram novo objeto de análise, desta vez concebido a partir da estética da produção e da recepção. Em decorrência disso, passou a delimitar-se pela relação entre ator e espectador, uma das várias relações teatrais compreendidas dentro do processo produtivo-receptivo.”
“Nas últimas décadas, a idéia de público enquanto entidade sociológica abstrata e homogênea cedeu lugar à noção antropológica de espectador. Entretanto, os lineamentos desta nova teatrologia devem pressupor a experiência estética não apenas como ‘trabalho do espectador’, mas considera-la em seu caráter coletivo e plural.”
“Na falta de um corpus conceitual ao mesmo tempo abrangente e específico que atenda plenamente aos estudos de recepção, conceitos como concretização e experiência estética adquirem novos sentidos conforme a tônica da abordagem. Teatralidade, acontecimento e convívio são apropriados com a finalidade de solucionar essa carência.”
“Enquanto atividade de preenchimento de lacunas ou vazios de um texto por parte do leitor, o conceito de concretização possibilitou aos teóricos da Escola de Constança compreender uma obra a partir de sua interação com o horizonte de expectativas – o sistema de referências ou esquema mental que um indivíduo emprega em seu processo de leitura, para investigar seus efeitos sobre o público.”
Sobre essas lacunas ou “gaps”, são importantes para estimular múltiplas interpretações da obra artística.
“Pelo viés da estética de produção e de recepção teatral, Patrice Pavis vinculou o circuito de concretização à dinâmica cultural em que o trabalho do espectador se realiza, ou seja, ao seu contexto social. [...] Para ele, a confrontação entre o metatexto (ou discurso) do diretor e o metatexto do espectador – nem sempre coincidentes – forma a concretização da encenação.”
Pavis chega a considerar a encenação como uma leitura em público, já que o texto dramático não tem um leitor individual, e sim uma leitura possível e coletiva, proposta pela encenação.
“[...] apesar da ênfase dos estudos na atividade do espectador, a carência metodológica das investigações é verificada, segundo De Marinis, pela incompreensão de que a competência teatral deve ser “entendida como o conjunto de tudo aquilo (atitudes, capacidades, conhecimentos, motivações) que coloca o espectador em condições de compreender (no sentido mais amplo do termo) uma representação teatral. (De Marinis, 1997, p.79).”
“Os estudos baseados na Fenomenologia da Experiência Estética [...] propuseram o retorno a questões de subjetividade e experiência, corporificação e espacialidade, presença e percepção, mas sempre a partir do olhar de um sujeito individualizado, nunca como experiência estética que se tem acesso em uma ação coletiva.”
“Como a experiência da recepção é individual, mas a relação cena-sala em que se produz tal experiência é de caráter coletivo, Miguel Santagada acredita que seja possível “investigar os conteúdos da experiência em termos de uma concretização solicitada a vários espectadores de um mesmo espetáculo.”
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