Páginas

Para encontrar nossas fotos, relatórios, projetos, planos de aula e etc...

Pesquise aqui!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Uma incursão pela estética da recepção.

Edélcio Mostaço

“A recepção não é uma dimensão individual, mas um fenômeno coletivo, resultante das manifestações advindas das interpretações singulares ou grupais, dimensionada através das práticas de leitura e agenciamentos históricos efetuados sobre textos e autores.”

“Há um horizonte de expectativas em torno da obra/artista e um dado efeito que produzem em seu tempo; sendo considerados inovadores aqueles que, de algum modo, desestabilizam tal relação; [...] esse percurso pode ser objetivado temporalmente, rastreando-se as reações junto ao público e o juízo produzido pela crítica, evidenciando as tensões sócio-ideológicas que o atravessam, os valores confrontados e os abalos quanto aos sistemas de códigos instituídos...”

“Tais eixos envolvem diversos procedimentos internos, responsáveis pela investigação de um método investigativo. A partir de três ângulos privilegiados – a poiesis, a aithesis e a katharsis – percorrendo o processo dialógico que envolve o artista e o espectador, fica claro que, mesmo dispensando ênfase à estrutura de significados e interações comunicativas advindas com a obra, a estética da recepção é uma operação comprometida com o processo artístico.”

“Ao emergir, em sua fase heróica, a estética da recepção provocou vários abalos, especialmente por deslocar o eixo da discussão cultural, deixando de privilegiar o autor e seu universo para ressaltar o processo interativo que se estabelece entre a obra, o leitor e o fundo social circundante.” P. 230.

“Ao recuperar o percurso fenomenológico e hermenêutico inaugurado por Husserln e Schleiermacher, Jauss voltou-se para Heiddeger Sartre e Gadamer, promovendo interações entre eles que associavam investigações profundas sobre a natureza e as particularidades da obra de arte e a constituição dos sujeitos autores, acima do psicologismo e dos determinismos que nada avançavam em relação às constituintes específicas do ato de leitura e seus processos.” P. 230

“O pós-estruturalismo, o desconstrucionismo, as novas plataformas analíticas que tomaram conta do ambiente intelectual mundial foram encorajadas, a partir dos anos de 1980, pela estética da recepção, infundindo cores e acentos diversos à visada analítica, consoantes com sua natureza múltipla e pluralista.”

“O objeto de arte, tal como qualquer outro produto, cria um público capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto, a produção não cria somente um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto.” P. 230 (apud, MARX, 1973, P. 116).

“A estética da recepção parte do pressuposto de que a arte é um fazer, uma construção e, como tal, infunde uma dada relação com o leitor/espectador.”

“Alguns conceitos formulados [pelo formalismo russo] são especialmente invocados, como o da arte como construção, como procedimento, paródia (enquanto desautomação), uma vez que implicam na relação estabelecida com o leitor/espectador.”

“Roman Ingarden, ao discorrer sobre a fenomenologia da obra literária, proverá o conceito de concretização – a cota de participação do leitor ao conferir significados à indeterminação da escritura-, destacando que a mesma articula uma estrutura de apelo em direção ao leitor.”

“Na acepção grega do fazer (poien), a poiesis implica no prazer que sentimos com realizadores da obra (ou de sua leitura), enquanto instância de instalação e apropriação do mundo exterior [...], através da qual se alcança um conhecimento diverso daquele difundido pela ciência e mais amplo que aquele dirigido à finalidade produtiva, caso do artesanato.”

“A aisthesis, por sua vez, implica na dimensão de percepção reconhecedora ou de reconhecimento perceptivo, já apontado como ‘pura visibilidade’, visão intensificada e sem conceito’, ‘da densidade do ser’, ‘pregnância perceptiva complexa’.”

“A katharsis, conceito colhido em Aristóteles e Górgias, através do qual nos deixamos levar pelo engano ou artifício, partícipes de um jogo capaz de infundir quer uma liberação da psique que uma mediação da apreensão que alivia o sujeito das normas de ação e julgamentos, acima dos interesses imediatos e implicações advindas do senso-comum.”

“A recepção, na atualidade, diz respeito a um certo número de agenciamentos no vasto território da cena, apresentando subsídios quer para a pedagogia quer para a história, quer para sociossemiótica quer para as análises do discursos, fomentando plataformas que estão alargando os estudos teatrais.”

Teatralidade tátil: alterações no ato do espectador

Flávio Desgranges

“A relação do espectador com o teatro está intimamente relacionada com a maneira, própria a cada época, de ver-sentir- pensar o mundo”.

“O drama surge como crítica ao existente, valendo-se de argumentos e soluções formais que mantêm em tensão as naturezas política e poética de seus princípios. Os embates da nova forma dramática se colocam em consonância com as reivindicações da classe social que idealizava as transformações político-sociais em curso”.

“Em defesa dos princípios dramáticos, os teóricos burgueses se relacionam de maneira crítica e revisionista com os escritos de Aristóteles, que inspiravam a tragédia heróica em voga”.

“A catarse aristotélica, por sua vez, passa a ser compreendida como vazão à sentimentalidade, a purgação entendida como correção pelas lagrimas”.

“O espectador se ver convidado a vivenciar com o herói, não apenas as suas falhas, mas, e principalmente, as reprimendas que lhe são impostas no decorrer da trama”.

“O palco dramático se apresenta como uma representação sintética da vida social, como um universo fechado concebido diante do espectador, que observa esse pequeno mundo de esguelha, como s não tivesse ali.”

“O drama moderno surge como oposição a essa empatia por abandono ( Brecht, 1978)estabelecida pelo drama burguês”.

“ O princípio dramático se mostra interrompido, problematizado cada vez que um elemento cênico se releva, cada vez que o teatro se apresenta enquanto tal, quebrando com a lógica do drama fechado”.

“A teatralidade assumida rompe com a ilusão do mundo-palco, propondo que o espectador se distancie da ficcionalidade, se descole da pele do herói e retorne á própria consciência”.

“O filosofo Benjamin estabelece que a recepção tátil se efetiva de modo inverso ao da recepção contemplativa, pois, ao invés de convidar o espectador a mergulhar na estrutura interna da obra, faz imergir o objeto artístico no espectador, atingindo-o organicamente – daí a noção de tátil”.

“A falta de lógica a priori estabelecida se relaciona com a noção de uma recepção compreendida como experiência, que se constitui na própria junção/ criação dos cacos de narrativa, ou em quaisquer jogos propostas pelo artista e realizados pelo espectador em sua relação com o objeto artístico”.

Comentário:

Como a própria intitulação do texto de Edélcio Mostaço, indica; Ele faz uma incursão pela estética da recepção, e aborda a estética através de três ângulos – a poiesis, a aithesis e a katharsis. Contudo, a estética da recepção passa por uma fase nova que vai repensar a relação do autor com a obra, o desprivilegiando. Passa a estar a favor de se estabelecer uma relação entre a obra, o leitor, e o fundo social circundante. A estética da recepção é questionada e investigada a todo tempo, principalmente por alguns autores como Robert Jauss, que passou a desprestigiar o psicologismo e o determinismo para o ato de leitura da obra. Assim como a recepção e seus estudos se transformam ao longo da história, assim também, o espectador muda em cada época da história, de acordo também com a dramaturgia proposta de cada época. Flávio Desgranges aponta alguns períodos desses, como: o drama burguês, que se opunha ao neoclassicismo. Além disso, aborda sobre o drama moderno que pensava o público como um agente reflexo através, principalmente do distanciamento. Todas essas formas de recepção são entendidas por Benjamim como contemplativas. Então, ele propõe através da estrutura pós-dramática, uma busca de refletir o espectador e a obra subjetivas, onde a tatilidade se configura a partir da obra atravessando o espectador.

Nenhum comentário: