Redefinições nos estudos de Recepção\ Relação Teatral
Clóvis Massa
“O vocábulo recepção, fortemente marcado pela teoria da informação, parecia contradizer a atividade produtiva do espectador, a concepção de que, em seu processo de apreensão, ele não apenas “recebe”, mas é corresponsável pelos sentidos da obra”.
“Em busca de uma teoria específica da recepção teatral, outra mudança de rumo se tornou urgente: ainda distante das investigações empíricas sobre espectadores vislumbrarem conclusões relevantes, as particularidades da arte teatral exigiram novo objeto de análise, desta vez concebido a partir da estética da produção e da recepção”.
“cabe distinguir os estudos de recepção em dois tipos: um diretamente vinculado à estética da recepção, com a intenção de examinar a acolhida de certas obras por um grupo num determinado período; outro, mais desenvolvido pela semiótica teatral, destinado a investigar os processos mentais, intelectuais e emotivos do espectador”.
“o conceito de concretização possibilitou aos teóricos da Escola de Constança compreender uma obra a partir de sua interação com o horizonte de expectativas – o sistema de referencias ou esquema mental que um individuo emprega em seu processo de leitura, para investigar seus efeitos sobre o público”.
“Pelo viés da estética de produção e da recepção teatral, Patrice Pavis vinculou o circuito de concretização à dinâmica cultural em que o trabalho do espectador se realiza, ou seja, ao seu contexto social. Para tanto, propôs a idéia de metatexto, ou seja, o conjunto de textos conhecidos pelo expectador ou pelo encenador e utilizados por ambos para a leitura do texto”.
“Pavis chega a considerar a encenação como uma leitura em público, já que o texto dramático não tem um leitor individual, e sim uma leitura possível e coletiva, proposta pela encenação”.
“O segundo tipo de pesquisa sobre recepção teatral, a que investiga os processos mentais, intelectuais e emotivos do espectador, procura analisar as operações do espectador a partir de uma base coerente de dados experimentais”.
“dentro dos pressupostos do ‘trabalho do espectador’ formulados por De Marins, o conjunto de tudo aquilo que coloca o espectador em condições de compreender uma representação teatral (atitudes, capacidades, conhecimentos, motivações) necessita de revisão para não destoar do fenômeno teatral como encontro fundado na presença simultânea de atores e espectadores, sob o risco da competência teatral passar ao largo da experiência coletiva”.
“ A abordagem receptiva fez a sua parte quando rompeu com a sujeição às antinomias e começou a considerar a interação com produção como parte essencial, o que libertou seus estudos da excessiva limitação a um gueto etimológico”.
O espaço da pedagogia na investigação da recepção do espetáculo
Biange Cabral
Diversidade e Pluralidade
“A complexidade da recepção teatral reside na polaridade entre sua dimensão coletiva ( um grupo de pessoas assistindo a um espetáculo) e a singularidade das percepções individuais, uma vez que aqui se inter-relacionam distintas áreas do conhecimento: ética, psicologia, sociologia, filosofia (as mais comuns a qualquer processo/produto artístico)”.
“Existe uma similaridade entre as questões postas á formação do espectador e á avaliação do desempenho do aluno”.
“A aproximação das funções do professor e do diretor, na contemporaneidade, reforça a oportunidade de investigar a recepção”.
“Hoje é possível observar um crescente interesse pela recepção, como parte da tendência das ciências humanas de privilegiar a auto-reflexão e reconhecer a relevância do contexto”.
“a leitura dos espectadores será sempre medida pelo seu ângulo de visão, o qual permite interpretar os signos verbais e visuais, e fazer inferências juntando as novas informações com seu conhecimento anterior”.
“a formação do espectador requer que a interpretação não é neutra, ela reflete os valores operando no campo em que é realizada”.
“A ultima frase de Brecht, por ele denominada“ Teatro Dialético”, enfatiza as contradição presentes nos sentimentos, opiniões, atitudes e interações humanas, seu objetivo era promover a observação crítica e estimular a atividade na esfera social”.
“ Esse modo ativo de decodificar convenções e signos se aproxima do desafio e do estímulo proporcionado por um jogo”.
“A investigação do impacto cultural causado pelo envolvimento com uma experiência teatral ( quer como ator ou expectador) passou então a focalizar o uso de questionários como forma de apresentar ao espectador uma cartografia do campo investigado”.
“Se o horizonte de expectativas examina a recepção pela perspectiva do desejo e da visão de mundo do espectador, os vazios do texto (os gaps) apontam para a apropriação do texto pelo leitor”.
“Na fronteira entre a pedagogia e o teatro, o estudo da recepção permite explorar formas de inserir o espectador no espaço espetacular e incluir sua voz na construção da narrativa teatral”.
Comentário:
As reflexões de Clóvis Massa e de Biange Cabral clarificam e ampliam as questões concernentes ao estudo da recepção. Mostram que o trato da recepção teatral é polêmico, devido também as diversas possibilidades de compreensão deste assunto, tanto pelo viés direto da estética da recepção, quanto pelo da semiótica teatral.
Além disso, os textos nos fazem questionar se existe uma forma correta de se interpretar, ou seja, de recepcionar uma obra artística. Ao mesmo passo, nos mostra que a recepção pode ser realizada pela interação com o horizonte de expectativas, que pode ser todo o arsenal interpretativo, possibilidades e experiências anteriormente vividas, pelo espectador, que podem auxiliar e contribuir com a compreensão da obra. Também por isso, verificamos que a recepção pode ser subjetiva, mesmo sabendo da existência do ponto de vista do autor. Esse ponto de vista pode ser levado em consideração ou não.
Para Patrice Pavis, a concretização da encenação perpassa pela coletividade da leitura cênica, ao considerar e ressaltar que as propostas de encenação podem ou não coincidir com a compreensão do espectador. É nesse encontro de incertezas que também se efetiva a recepção. Além disso, e pela não neutralidade da interpretação, notamos que não existe um paradigma único referente à interpretação.
A fim de investigar a recepção teatral, verificamos uma aproximação entre o professor e o diretor se bifurcando no exercício da mediação, onde é possível, medir e inferir o que o espectador apurou da obra. E isso é possível, até mesmo com a utilização de questionários, que podem também revelar a conjectura dos gaps; vazios do texto, que acontecem também na efemeridade do jogo teatral. Assim os estudos da recepção teatral podem contribuir com muitos aspectos pedagógicos e vice-versa, e também com nossas práticas teatrais.
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