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segunda-feira, 14 de março de 2011

Biange Cabral e Clóvis Massa discutindo sobre Recepção Teatral.

Bolsista: Taiana Lemos

O espaço da pedagogia na investigação da recepção do espetáculo, da autora Biange Cabral e Redefinições nos estudos de Recepção/Relação Teatral do autor Clóvis Massa, são artigos que compõem a publicação Sala Preta, do Programa de pós graduação em Artes Cênicas da USP.Os dois textos são as primeiros referenciais teóricos fichados neste semestre e compõem o banco de texto norteadores do estudo proposto pelo Projeto Teatro e Recepção nas escolas públicas de Salvador.

Seguem breve comentário e fichamentos dos artigos:

A reflexão de Biange Cabral aponta a investigação da recepção como espaço pedagógico da ação teatral. São lançadas ao professor/diretor e aos alunos/espectadores possibilidades de ampliação do campo investigatório da recepção, estimulando a identificação de aspectos que englobam a cena teatral e as relações com o processo de criação.Inserido no contexto escolar, o professor/diretor encontra-se com as esferas da coletividade e da individualidade e seu trabalho deve ser o de contrapor essas esferas, buscando focalizar a diversidade desse contexto, através de suas escolhas metodológicas para direcionar ou redirecionar a construção da narrativa teatral.Os subsídios teóricos da abordagem de Biange Cabral estão nas perspectivas de Hans-Robert Jauss e Wolfgang Iser,suas contribuições permitem repensar sobre a mediação,através da noção de horizontes de expectativas e a noção de gaps.

Clóvis Massa faz um “breve recorte histórico-conceitual das teorias da recepção” com o intuíto de refletir sobre as redefinições recorrentes nos estudos de recepção, desenvolvendo uma crítica à carência de metodologias para invesigações que abordam a relação teatral.Os subsídios teóricos de sua abordagem perpassam por Hans-Robert Jauss,Marco De Marinis,Patrice Pavis,Roman Ingarden, Wolfgang Iser,Miguel Santagada e Jorge Dubatti. Massa realiza uma interessante comparação entre as teorias dos diversos autores, gerando problematizações.

Numa experiência pedagógica que objetiva o estímulo à investigação e prática da recepção Teatral é imprescindível que se leve em conta, tanto os aspectos individuais quanto os aspectos que tangem a coletividade.Um exemplo com essa perspectiva é o Projeto Cuida Bem de Mim, do qual fui integrante durante dois anos.Ao ler os dois artigos,relacionei as experiências práticas e teóricas vivenciadas no Projeto com as questões lançadas pelos autores. A identificação dos espectadores (jovens alunos da rede pública) com a história retratada na peça,relações entre os elementos do espetáculo, os jovens e o seu contexto,os impactos ocorridos após a apreciação da peça, a maneira como eram lançados ao espectador os instrumentos de análise da obra.Todas essas questões eram cuidadosamente analisadas pelos profissionais e jovens atores que formavam-se nesse contexto.Essa experiência é uma metodologia de investigação que aborda a relação teatral,servindo de exemplo para novas metodologias, afim de suprir a carência apontada por Clóvis Massa.Pude relacionar os levantamentos de Biange Cabral sobre a perspectiva do professor/diretor, analisando a experiência vivenciada com o Cuida Bem de Mim e as minhas atuais atividades.

O espaço da pedagogia na investigação da recepção do espetáculo

Autor:Biange Cabral.

Diversidade e pluralidade

“A complexidade da recepção teatral reside na polaridade entre sua dimensão coletiva (um grupo de pessoas assistindo a um espetáculo) e a singularidade das percepções individuais, uma vez que aqui se inter-relacionam distintas áreas do conhecimento:ética, psicologia, sociologia, filosofia (as mais comuns a qualquer processo/produto artístico)”

“ Existe uma similaridade entre as questões postas à formação do espectador e à avaliação do desempenho do aluno”(p.01)

“ Professor e diretor são ambos mediadores entre a produção e recepção do espetáculo.” (p.01)

“ Hoje é possível observar um crescente interesse interesse pela recepção, como parte da tendência das ciências humanas de privilegiar a auto-reflexão e reconhecer a relevância do contexto.” (p.02)

“ O foco na recepção emergiu como uma reação contra o papel exclusivo do texto no processo de cosntrução de significados em arte.” (p.02)

“ Segundo Harker (1992,p.33), apesar das diferenças entre seus métodos de investigação, as Teorias da Responsividade (Reader-response Theories) e da Psicologia Cognitiva compartilham dois principíos que são particularmente importantes para a área da pedagogia do teatro: 1.ambas concebem oi significado como resultante do engajamento ativo do leitor com o texto; 2. Ambas afirmam que o entendimento ocorre no momento do engajamento do leitor com o mtexto, sem negar a importância de seus encontros p´revios com o mesmo ou com outros textos.” (p.02)

“ No decorrer de um processo de ficção, contexto e circunstâncias precisam ser criados e desenvolvidos.Daí a necessidade da mediação.A maioria dos desempenhos pobres no ensino de teatro se relaciona com a carência de informações-as referências se esgotam, os alunos passam a repetir, ou desistem de participar.” (p.02 e 03)

“ [...] a formação do espectador requer que sejam ouvidas as percepções individuais e evitadas as interpretações por parte tanto dos alunos quanto do professor.” (p.03)

O impacto cultural e a investigação da recepção

“ Ao mediar a interação do espectador com a cena através de um questionário que represente uma cartografia do campo a ser investigado,o professor/diretor está por um lado,observando o que foi mais significativo para um determinado grupo de espectadores, e por outro lado, ampliando o significado da cena ao re-dimensionar o olhar destes espectadores.” (p.04)

Implicações pedagógicas

“ Se o horizonte de expectativas examina a recepção pela perspectiva do desejo e da visão de mundo do espectador, os vazios do textos (os gaps) apontam para a apropriação do texto pelo leitor.” (p.05)

“ O papel do professor, além de identificar um texto aberto para o trabalho em grupo, está também em dirigir atenção dos participantes para estes vazios do texto (mesmo que ele resulte da criação coletiva do grupo)" (p.05)

“ As noções de horizonte de espectativas e vazios do texto permitem repensar a recepção teatral no âmbito da pedagogia, uma vez que ampliam possibilidades para compreender a relação entre função da linguagem e o papel do leitor.” (p.06)

Redefinições nos estudos de Recepção/Relação Teatral

Autor:Clóvis Massa

“ O vocábulo recepção, fortemente marcado pela teoria da informação,parecia contradizer a atividade produtiva do espectador, a concepção de que, em seu processo de apreensão, ele não apenas “recebe”, mas é co-responsável pelos sentidos da obra” (p.01)

“ Em busca de uma teoria específica da recepção teatral, outra mudança de rumo se tornou urgente:ainda distante das investigações empíricas sobre espectadores vislumbrarem conclusões relevantes, as particularidades da arte teatral exigiram novo objeto de análise, desta vez concebido a partir da estética da produção e da recepção.Em decorrência disso passou a delimitar-se pela relação entre ator e espectador,umas das várias relações teatrais compreendidas dentro do processo produtivo receptivo.” (p.01)

“Nas últimas décadas, a idéia de público enquanto entidade sociológica abstrata e homogênea cedeu lugar à noção antropológica de espectador.Entretanto, os lineamentos desta nova teatrologia devem pressupor a experiência estática não apenas como ‘trabalho do espectador’, mas considerá-la em seu caráter coletivo e plural.” (p.02)

“ [...] a carência metodológica das investigações é verificada, segundo De Marinis, pela incompreensão de que a competência teatral deve ser “entendida como o conjunto de tudo aquilo (atitudes, capacidades, conhecimentos,, motivações) que coloca o espectador em condições de compreender( no sentido mais amplo do termo) uma representação teatral” (p.03)

“ Como a experiência da recepção é individual, mas a relação cena-sala em que se produz tal experiência é de caráter coletivo, Miguel Santagada acredita que seja possível “investigar os conteúdos em termos de uma concretização solicitada a vários espectadores de um mesmo espetáculo.” (p.04)

“ A abordagem receptiva fez a sua parte quando rompeu com a sujeição às antinomias e começou a considerar a interação com a produção como parte essencial, o que libertou seus estudos da excessiva limitação e um gueto epistemológico.” (p.05)

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