ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura / Paul Zumthor; trads. Jerusa Pires Ferreira, Suely Fenerich. São Paulo: EDUC, 2000.
“Os meios eletrônicos, auditivos e audiovisuais são comparáveis à escrita por três de seus aspectos:
1. Abolem a presença de quem traz a voz;
2. Mas também saem do puro presente cronológico, porque a voz que transmitem é reiterável, indefinidamente, de modo idêntico;
3. Pela sequência de manipulações que os sistemas de registro permitem hoje, os mídia tendem a apagar as referências espaciais da voz viva: o espaço em que se desenrola a voz midiatizada torna-se ou pode tornar-se um espaço artificialmente composto.” (p. 17)
“(...) É então possível (e essa opinião é a mais comum) ver nos meios auditivos uma espécie de revanche, de retorno forçado da voz, e ainda mais do que a voz, porque com filme ou tevê vê-se uma imagem fotográfica e, talvez, ainda em breve, tenha-se a percepção do volume.” (p.18)
“(...) de todo modo, aquilo que se perde com os mídia, e assim necessariamente permanecerá, é a corporeidade, o peso, o calor, o volume real do corpo, do qual a voz é apenas expansão (...).” (p.19)
“(...) De todos os componentes da obra, uma poética da escrita pode, em alguns casos, ser mais ou menos econômica; uma poética da voz não o pode jamais. (...) Estou particularmente convencido de que a idéia de performance deveria ser amplamente estendida; ela deveria englobar o conjunto de fatos que compreende, hoje em dia a palavra recepção, mas relaciono-a ao momento decisivo em que todos os elementos cristalizam em uma e para uma percepção sensorial – um engajamento do corpo. (...) O termo e a idéia de performance tendem (em todo caso, no uso anlgo-saxão) a cobrir toda uma espécie de teatralidade: aí está um sinal. Toda ‘literatura’ não é fundamentalmente teatro?” (p. 21 e 22)
“(...) O autor, sujeito produtor do texto, cai sob o fogo cruzado dos projetores; o leitor, a quem não se nega a qualidade de sujeito da recepção, fica na penumbra. (...)” (p. 25)
“(...) O corpo é o peso sentido na experiência que faço dos textos. Meu corpo é a materialização daquilo que me é próprio, realidade vivida e que determina minha relação com o mundo. Dotado de uma significação incomparável, ele existe à imagem de meu ser: é ele que eu vivo, possuo e sou, para o melhor e para o pior.” (p. 28)
“Primeira: coloco-me do ponto de vista do leitor, mais do que da leitura, no sentido em que esta palavra designa abstratamente uma operação. O que eu questiono é o leitor lendo, operador da ação de ler.” (p.29)
“(...) Um certo número de realidades e de valores, assim revelados, aparecem identicamente envolvidos na prática da leitura literária. Daí o lugar central que dou à idéia de performance.” (p. 32)
“As regras da performance – com efeito, regendo simultaneamente o tempo, o lugar, a finalidade da transmissão, a ação do locutor e, em ampla medida, a resposta do público – importam para comunicação tanto ou ainda mais do que as regras textuais postas na obra na sequência das frases: destas, elas engedram o contexto real e determinam finalmente o alcance.” (p. 35)
“Muitas culturas através do mundo codificaram os aspectos não verbais da performance e a promoveram abertamente como fonte de eficácia textual. Em outros termos, performance implica competência. Mas o que é aqui a competência? À primeira vista, aparece como savoir-faire.” (p.35)
“A performance é então um momento da recepção: momento privilegiado, em que um enunciado é realmente recebido.” (p.59)
“Não é menos verdade, no entanto, que toda leitura seja produtividade e que ela gere um prazer. Mas é preciso reintegrar, nesta idéia de produtividade, a percepção, o conjunto de percepções sensoriais. A recepção, eu o repito, se produz em circunstância psíquica privilegiada: performance ou leitura.” (p. 61)
“(...) O texto vibra; o leitor o estabiliza, integrando-o àquilo que é ele próprio. Então, é ele que vibra de corpo e alma.” (p. 63)
“(...) O que opõe uma mensagem escrita a uma oral é mais exterior a essas próprias mensagens, e reside no estilo de experiência ligado a um outro dos mídia mais do que ao estatuto poético.” (p. 67)
“Assistir a uma representação teatral emblematiza, assim, aquilo ao que tende – o que é potencialmente – todo ato de leitura.” (p.72)
“A performance é ato de presença no mundo e em si mesma. Nela o mundo está presente. Assim, não se pode falar de performance de maneira perfeitamente unívoca e há lugar aí para definir em diferentes graus, ou modalidades: a performance propriamente dita, gravada pelo etnólogo num contexto de pura oralidade; depois uma série de realizações mais ou menos claras, que se afastam gradualmente desse primeiro modelo.” (p. 79)
“A performance dá ao conhecimento do ouvinte-espectador uma situação de enunciação. A escrita tende a dissimulá-la mas, na medida do seu prazer, o leitor se empenha em restituí-la. A ‘compreensão’ passa por esse esforço. (...) A noção de enunciação leva a pensar o discurso como acontecimento.” (p. 83)
“A percepção é essencialmente presença. Perceber lendo poesia é suscitar uma presença em mim, leitor. Mas nenhuma presença é plena, não há nunca coincidência entre ela e eu. Toda presença é precária, ameaçada.” (p. 94)
“Nossos ‘sentidos’, na significação mais corporal da palavra, a visão, a audição, não são somente as ferramentas de registro, são órgãos de conhecimento.” (p.95)
“A imaginação, contrariamente ao ditado, não é louca; simplesmente, ela dês – razoa. Em vez de deduzir , do objeto com o qual de confronta, possíveis conseqüências, ela o faz trabalhar.” (p.124)
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