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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Uma incursão pela estética da recepção – Edélcio Mostaço


Uma incursão pela estética da recepção – Edélcio Mostaço

“Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de ideias, excitações, associações? (Roland Barthes, O rumor da língua).” (p.01).

“A recepção não é uma dimensão individual, mas um fenômeno coletivo, resultante das manifestações advindas das interpretações singulares ou grupais, dimensionada através das práticas de leitura e agenciamentos históricos efetuados sobre textos e autores.” (p.01).

“A partir de três ângulos privilegiados – a poiesis, a aisthesis e a katharsis – percorrendo o processo dialógico que envolve o artista e o espectador, fica claro que, mesmo dispensando ênfase à estrutura de significados e interações comunicativas advindas com a obra, a estética da recepção é uma operação comprometida com o processo artístico. No campo teatral, foram franceses e italianos que se responsabilizaram por sintonizar mais detalhadamente os pressupostos da recepção [...] dedicando ensaios diversos à multiplicidade de aspectos por ela abarcados.” (p.02).

“[...] a estética da recepção provocou vários abalos, especialmente por deslocar o eixo da discussão cultural, deixando de privilegiar o autor e seu universo para ressaltar o processo interativo que se estabelece entre a obra, o leitor e o fundo social circundante.” (p.02).

“[...] o prazer enfatizava a materialidade sensível do processo artístico, as constituintes intrínsecas à arte que, irredutíveis quando da experiência estética, reverberam sobre o corpo do leitor/espectador. Ignorá-las é fazer-se de cego (ou surdo ou mudo) às percepções e sensações originárias da obra, razão de ser de sua produção e fruição.” (p.03).

“Após associar o cultivo do gozo, do prazer e das emoções ao desenvolvimento exploratório como promovido pela indústria cultural, e daí à necessidade de seu exorcismo por intermédio da negatividade.” (p.03).
“A dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certas formas de desenvolvimento social. A dificuldade reside no fato de nos proporcionarem ainda um prazer estético e de terem para nós, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos inacessíveis (Marx, 1973, p. 131; grifos meus).” (p.03).

“[...] a estética como campo de conhecimento e, posteriormente, estímulo fenomenológico, livrando a arte de ser tomada como um reflexo frente à verdade ou o real, a não ser para neo-hegelianos e marxistas.” (p.04).

“A estética da recepção parte do pressuposto de que a arte é um fazer, uma construção e, como tal, infunde uma dada relação com o leitor/espectador.” (p.04).

“Alguns conceitos formulados [...] são especialmente invocados, como o da arte como construção, como procedimento, como estranhamento, paródia [...] uma vez que implicam na relação estabelecida com o leitor/espectador” (p.04).

“Ao deslocarem o eixo analítico da produção para a recepção, os teóricos de Constança grifaram a função da leitura sob dois aspectos: a de horizonte de expectativa [...] e o de emancipação [...]. Ou seja, circunscrevem a pluralidade de instâncias subjacentes às poiesis, aisthesis e katharsis, três fases concomitantes da experiência estética que levam à apreensão da obra.” (p.05).

“[...] a poiesis implica no prazer que sentimos como realizadores da obra [...], enquanto instância de instalação e apropriação do mundo exterior [...] através da qual se alcança um conhecimento diverso daquele infundido pela ciência e mais amplo que aquele dirigido à finalidade produtiva, caso do artesanato. A aisthesis, por sua vez, implica na dimensão de percepção reconhecedora ou de reconhecimento perceptivo, já apontado como “pura visibilidade”, “visão intensificada e sem conceito”, “da densidade do ser”,
“pregnância perceptiva complexa”, segundo alguns autores que tentaram captá-la.” (p.05).

“E a katharsis, conceito colhido em Aristóteles e Górgias, através do qual nos deixamos levar pelo engano ou artifício, partícipes de um jogo capaz de infundir quer uma liberação da psique quer uma mediação de apreensão que alivia o sujeito das normas de ação e julgamentos, acima dos interesses imediatos e implicações advindas do senso-comum.” (p.05).

“[...] as três instâncias da experiência estética são subjetivas e intersubjetivas, não obedecendo a uma hierarquia de camadas ou importância e implicando numa relação de autonomia uma em relação às demais, apresentando-se sequenciais ou não.” (p.05).

“No bojo desse intenso movimento de revisão das relações entre obra e leitor/espectador, avolumaram-se as preocupações em torno da decifração, da interpretação, da contextualização de informações delas emanadas. Ficou claro que a tarefa era complexa e que o entrelaçamento de várias operações era indispensável para dimensionar o problema, na busca de superar o velho e insuficiente esquema proposto pela comunicação” (p.06).

“Esse movimento frenético no plano da sociosemiótica correspondeu à igual movimentação no universo das ciências biológicas e suas ramificações, interessadas nos fenômenos da cognição.” (p.06).

“[...] continuamos tateando no que diz respeito à natureza e complexidade da linguagem cênica e ao conjunto de fenômenos desencadeados junto ao espectador quando da experiência estética no plano espetacular, no sentido de fixar como funciona a competência específica do saber teatral” (p.06).

“[...] a recepção, na atualidade, diz respeito a um sem número de agenciamentos no vasto território da cena, apresentando subsídios quer para a pedagogia quer para a história, quer para a sóciosemiótica quer para a análise dos discursos, fomentando plataformas que estão alargando os estudos teatrais.” (p.07).

COMENTÁRIO:
O autor faz uma exposição à respeito do desenvolvimento das tendências e principais objetivos e estratégias da estética da recepção. Além disso, Mostaço foca nas características da poiesis, da aisthesis e da katharsis. A primeira implica no prazer que sentimos como realizadores da obra; A segunda implica na dimensão de percepção reconhecedora; E a katharsis através da qual nos deixamos levar pelo engano ou artifício. O autor ainda traz o contexto da leitura do teatro e considera condições relativas à formação do espectador.

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