Uma
incursão pela estética da recepção – Edélcio Mostaço
“Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro,
interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário,
por afluxo de ideias, excitações, associações? (Roland Barthes, O rumor da língua).”
(p.01).
“A recepção não é uma dimensão
individual, mas um fenômeno coletivo, resultante das manifestações advindas das
interpretações singulares ou grupais, dimensionada através das práticas de leitura
e agenciamentos históricos efetuados sobre textos e autores.” (p.01).
“A partir de três ângulos privilegiados
– a poiesis, a aisthesis e a katharsis – percorrendo o processo dialógico que
envolve o artista e o espectador, fica claro que, mesmo dispensando ênfase à
estrutura de significados e interações comunicativas advindas com a obra, a
estética da recepção é uma operação comprometida com o processo artístico. No
campo teatral, foram franceses e italianos que se responsabilizaram por
sintonizar mais detalhadamente os pressupostos da recepção [...] dedicando
ensaios diversos à multiplicidade de aspectos por ela abarcados.” (p.02).
“[...] a estética da recepção provocou
vários abalos, especialmente por deslocar o eixo da discussão cultural,
deixando de privilegiar o autor e seu universo para ressaltar o processo
interativo que se estabelece entre a obra, o leitor e o fundo social
circundante.” (p.02).
“[...] o prazer enfatizava a
materialidade sensível do processo artístico, as constituintes intrínsecas à arte
que, irredutíveis quando da experiência estética, reverberam sobre o corpo do
leitor/espectador. Ignorá-las é fazer-se de cego (ou surdo ou mudo) às percepções
e sensações originárias da obra, razão de ser de sua produção e fruição.”
(p.03).
“Após associar o cultivo do gozo, do
prazer e das emoções ao desenvolvimento exploratório como promovido pela
indústria cultural, e daí à necessidade de seu exorcismo por intermédio da
negatividade.” (p.03).
“A dificuldade não está em compreender
que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certas formas de desenvolvimento
social. A dificuldade reside no fato de nos proporcionarem ainda um prazer estético
e de terem para nós, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos
inacessíveis (Marx, 1973, p. 131; grifos meus).” (p.03).
“[...] a estética como campo de
conhecimento e, posteriormente, estímulo fenomenológico, livrando a arte de ser
tomada como um reflexo frente à verdade ou o real, a não ser para
neo-hegelianos e marxistas.” (p.04).
“A estética da recepção parte do
pressuposto de que a arte é um fazer, uma construção e, como tal, infunde uma
dada relação com o leitor/espectador.” (p.04).
“Alguns conceitos formulados [...] são
especialmente invocados, como o da arte como construção, como procedimento,
como estranhamento, paródia [...] uma vez que implicam na relação estabelecida
com o leitor/espectador” (p.04).
“Ao deslocarem o eixo analítico da produção
para a recepção, os teóricos de Constança grifaram a função da leitura sob dois
aspectos: a de horizonte de expectativa [...] e o de emancipação [...]. Ou
seja, circunscrevem a pluralidade de instâncias subjacentes às poiesis,
aisthesis e katharsis, três fases concomitantes da experiência estética que
levam à apreensão da obra.” (p.05).
“[...] a poiesis implica no prazer que
sentimos como realizadores da obra [...], enquanto instância de instalação e
apropriação do mundo exterior [...] através da qual se alcança um conhecimento
diverso daquele infundido pela ciência e mais amplo que aquele dirigido à
finalidade produtiva, caso do artesanato. A aisthesis, por sua vez, implica na
dimensão de percepção reconhecedora ou de reconhecimento perceptivo, já
apontado como “pura visibilidade”, “visão intensificada e sem conceito”, “da
densidade do ser”,
“pregnância perceptiva complexa”, segundo
alguns autores que tentaram captá-la.” (p.05).
“E a katharsis, conceito colhido em
Aristóteles e Górgias, através do qual nos deixamos levar pelo engano ou
artifício, partícipes de um jogo capaz de infundir quer uma liberação da psique
quer uma mediação de apreensão que alivia o sujeito das normas de ação e
julgamentos, acima dos interesses imediatos e implicações advindas do
senso-comum.” (p.05).
“[...] as três instâncias da experiência
estética são subjetivas e intersubjetivas, não obedecendo a uma hierarquia de camadas
ou importância e implicando numa relação de autonomia uma em relação às demais,
apresentando-se sequenciais ou não.” (p.05).
“No bojo desse intenso movimento de
revisão das relações entre obra e leitor/espectador, avolumaram-se as preocupações
em torno da decifração, da interpretação, da contextualização de informações
delas emanadas. Ficou claro que a tarefa era complexa e que o entrelaçamento de
várias operações era indispensável para dimensionar o problema, na busca de
superar o velho e insuficiente esquema proposto pela comunicação” (p.06).
“Esse movimento frenético no plano da sociosemiótica
correspondeu à igual movimentação no universo das ciências biológicas e suas ramificações,
interessadas nos fenômenos da cognição.” (p.06).
“[...] continuamos tateando no que diz
respeito à natureza e complexidade da linguagem cênica e ao conjunto de
fenômenos desencadeados junto ao espectador quando da experiência estética no
plano espetacular, no sentido de fixar como funciona a competência específica
do saber teatral” (p.06).
“[...] a recepção, na atualidade, diz
respeito a um sem número de agenciamentos no vasto território da cena,
apresentando subsídios quer para a pedagogia quer para a história, quer para a
sóciosemiótica quer para a análise dos discursos, fomentando plataformas que
estão alargando os estudos teatrais.” (p.07).
COMENTÁRIO:
O autor faz uma exposição à respeito do
desenvolvimento das tendências e principais objetivos e estratégias da estética
da recepção. Além disso, Mostaço foca nas características da poiesis, da aisthesis e da katharsis. A
primeira implica no prazer que sentimos como realizadores da obra; A segunda
implica na dimensão de percepção reconhecedora; E a katharsis através da qual
nos deixamos levar pelo engano ou artifício. O autor ainda traz o contexto da
leitura do teatro e considera condições relativas à formação do espectador.
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