O
espaço da pedagogia na investigação da recepção do espetáculo – Biange Cabral
“A complexidade da recepção teatral
reside na polaridade entre sua dimensão coletiva [...] e a singularidade das
percepções individuais, uma vez que aqui se inter-relacionam distintas áreas do
conhecimento”. (p.01).
“A dificuldade da interação entre produção
e recepção reside tanto em receber a crítica quanto em realizá-la”. (p.01).
“A questão é ‘o que o aluno aprendeu e não
se ele aprendeu o que o professor ensinou’. Seguindo o mesmo princípio, no caso
da formação do espectador, a pergunta seria ‘o que ele percebeu ou como ele leu
a cena, e não se ele captou a intenção do autor’”. (p.01).
“Se no campo do ensino do teatro é crescente
a ênfase na necessidade do professor assumir a função de diretor”. (p.01).
“Professor e diretor são ambos
mediadores, entre a produção e a recepção do espetáculo”. (p.01).
“Em processos de criação de médio ou
longo prazo, o diálogo entre encenador e atores [...] acontece no decorrer da
montagem. Em trabalhos em um contexto curricular fragmentado, ou em oficinas de
curta duração com expectativas de apresentação dos resultados, esta concepção
dificilmente é percebida”. (p.02).
“Segundo Harker (1992, p. 33), apesar das
diferenças entre seus métodos de investigação, as Teorias da Responsividade
[...] e da Psicologia Cognitiva compartilham dois princípios que são particularmente
importantes para a área da pedagogia do teatro: 1. ambas concebem o significado
como resultante do engajamento ativo do leitor com o texto. dois. ambas afirmam
que o entendimento ocorre no momento do engajamento do leitor com o texto, sem
negar a importância de seus encontros prévios com o mesmo ou com outros textos.
Umberto Eco argumenta [...] que ao selecionar convenções e signos e ao
estabelecer relações co-textuais os atores estão lidando com ambiguidades e
oferecendo uma série de conotações, isto é, sugerindo mais do que é realmente
falado ou demonstrado. Uma vez que cada elemento no palco torna-se
significante, o texto será sempre ideologicamente denso dado seu aspecto
coletivo e multiplicidade de signos e convenções. Por outro lado, a leitura dos
espectadores será sempre mediada pelo seu ângulo de visão, o qual permite
interpretar os signos verbais e visuais, e fazer inferências juntando as novas
informações com seu conhecimento anterior”. (p.02).
“Na vida cotidiana, contexto e
circunstâncias estão usualmente implícitos – nós sabemos com quem estamos
falando e a situação que estamos vivenciando. Cada vez que encontramos
estranhos em locais não usuais, nós nos apresentamos”. (p.02).
“A maioria dos desempenhos pobres no
ensino de teatro se relaciona com a carência de informações – as referências se
esgotam, os alunos passam a se repetir, ou desistem de participar. O mesmo
acontece com relação à recepção; para ler a cena, os espectadores precisam perceber
o contexto e as circunstâncias em que ela ocorre. Além disso, há outra
interferência na percepção e fruição artística – ambas dependem também do gosto
e experiências pessoais. Assim sendo, a formação do espectador requer que sejam
ouvidas as percepções individuais e evitadas as interpretações por parte tanto
dos alunos quanto do professor. As considerações acima deixam evidente que a
interpretação não é neutra, ela reflete os valores operando no campo em que é
realizada”. (p.03).
“[...] considerar a recepção e a
interpretação como processos baseados em valores estéticos e políticos, traz consequências
importantes para a formação do espectador”. (p.03).
“O espaço da recepção na interpretação aponta
para aquilo que tem sido considerado como papel produtivo do leitor”. (p.03).
“Susan Bennet acentua que “é no teatro
de oposição pós-brechtiano que a plateia atingiu um papel gradualmente mais produtivo”
(Bennett, 1990, p. 21). O teatro de Brecht se concentrou na mudança dos modos
tradicionais de produção e recepção através da introdução daquilo que Elizabeth
Wright chamou “recursos simbólicos planejados para interromper a unidade imaginária
entre produtor e texto, ator e papel, espectador e palco, tais como: efeito de
estranhamento, foco no gesto, apelo ao espectador” (Wright, 1989, p. 2). A
última fase de Brecht, por ele denominada “Teatro Dialético”, enfatiza as
contradições presentes nos sentimentos, opiniões, atitudes e interações humanas”.
(p.03).
“Se as contradições estão no centro do engajamento
ativo do espectador, este para ser eficaz depende da capacidade dos
participantes em decodificar o texto coletivo.” (p.03).
“Esse modo ativo de decodificar
convenções e signos se aproxima do desafio e do estímulo proporcionado por um
jogo. “O prazer teatral é o prazer do signo”, argumenta Anne Übersfeld, “é o
mais semiótico de todos os prazeres” (...) Acima de tudo este prazer deriva da
atividade; do envolvimento do espectador na interpretação de uma multiplicidade
de signos. O objetivo não é encontrar a verdade, mas perceber que o mundo está
lá para ser interpretado (Übersfeld, 1982, p. 127-35)”. (p.03).
“[...] o impacto cultural de um espetáculo
está relacionado quer com sua ressonância com o contexto social do espectador,
quer com a transgressão das formas usuais e/ou cotidianas do uso do espaço e
texto. A primeira investigação foi efetivada durante um intercâmbio [...] onde
foi priorizado o “o olhar estrangeiro” – os tipos de estranhamento que o
contexto local provocou no pesquisador visitante”. (p.04).
“[...] um projeto de pesquisa sobre
teatro em comunidade passou a usar um questionário, como roteiro para
entrevistar atores e espectadores de espetáculos realizados através da parceria
entre estudantes de teatro e moradores locais. O número e a heterogeneidade dos
participantes destes eventos, além do caráter de sua produção, dificultariam a
análise da recepção, e o questionário foi visto como uma possibilidade de
pontuar os aspectos da estética teatral priorizados na encenação, delimitando assim
o campo de observação. Isto permitiu coletar informações sobre os aspectos da
montagem que foram mais significativos e tiveram maior repercussão. A análise
dos resultados surpreendeu em dois aspectos. Em primeiro lugar, não
correspondeu às expectativas da equipe de produção – o que foi priorizado pelos
atores havia sido previsto como aquilo que seria priorizado pelo espectador comum,
e vice-versa. Em segundo lugar, os atores, formandos de uma Licenciatura em
Artes Cênicas, foram unânimes na constatação de que o questionário os fez
perceber a extensão do trabalho realizado, em termos da identificação dos
elementos trabalhados. A constatação de que a expectativa do professor-diretor
não se confirmou no levantamento de opiniões realizado através desta
investigação, levou à experimentação do uso de questionários em contexto e
circunstâncias diversas: Mostras de Teatro Educação, espetáculos de grupos profissionais,
disciplinas de graduação, laboratórios experimentais, oficinas. Nestas
experiências, a ampliação da percepção dos participantes sobre o trabalho que
acabaram de realizar foi considerada mais importante do que o resultado
quantificado da pesquisa. A investigação do impacto cultural causado pelo envolvimento
com uma experiência teatral (quer como ator ou espectador), passou então a
focalizar o uso de questionários como forma de apresentar ao espectador uma
cartografia do campo investigado. Este procedimento amplia o campo de percepção
do espectador, que identifica o que lhe foi mais significativo”. (p.04).
“[...] para um determinado grupo de
espectadores, e por outro lado, ampliando o significado da cena ao redirecionar
o olhar destes espectadores. Ocasiões em que um questionário foi distribuído
antes do evento revelaram que os espectadores leram o mesmo enquanto aguardavam
o início do espetáculo e que este fato ampliou sua percepção de sutilezas da
cena, e em consequência, seu prazer. Ocasiões em que o questionário foi
entregue após o espetáculo provocaram o retorno de vários espectadores, para
assisti-lo novamente, a fim de suprir algumas lacunas de sua percepção que
consideraram essenciais à fruição do mesmo”. (p.04 e 05).
“O prazer, diz Guénoun, é, portanto,
proporcionado pelo conhecimento, pela representação como conhecimento (cf.
Guénoun, 2004, p. 27)”. (p.05).
“[...] a comunicação literária só
conserva o caráter de uma experiência estética se mantiver o caráter do prazer.
O prazer por meio da experiência estética permeia um acontecimento que deve
provocar um deslumbramento, tirando o contemplador da percepção automatizada ou
habitual do cotidiano e o conduzindo à dimensão estética”. (p.05).
“Se o horizonte de expectativas examina
a recepção pela perspectiva do desejo e da visão de mundo do espectador, os
vazios do texto (os gaps) apontam para a apropriação do texto pelo leitor”.
(p.05).
“Um trabalho de criação, segundo Iser,
tem dois pólos: o artístico (o texto) e o estético (a realização do texto pelo
leitor). Mas, a obra de arte que dele decorre, não é idêntica ao texto nem à
sua realização pelo leitor – ela se situa no meio das duas”. (p.05).
“Assim como o autor seleciona partes da
realidade para incorporar no texto, o leitor seleciona partes do texto para
priorizar na sua interpretação. O papel do professor, além de identificar um
texto aberto para o trabalho em grupo, está também em dirigir a atenção dos
participantes para estes vazios do texto (mesmo que ele resulte da criação
coletiva do grupo)”. (p.05).
“Entretanto, “o vazio do texto se refere
a algo de importância vital” (Iser, 1974, p. 33).
O gap não é uma falta de detalhes; os
romances atuais, por exemplo, possuem excesso de detalhes, e é justamente isto
que faz com que se observem tantos vazios”. (p.05)
“As noções de horizonte de expectativas
e vazios do texto permitem repensar o ensino no contexto contemporâneo da
pedagogia pós-crítica. Henri Giroux introduz a noção do professor como intelectual,
para propor uma perspectiva pedagógica centrada na democratização do ensino”.
(p.05).
“As noções de horizonte de expectativas
e vazios do texto permitem repensar a recepção teatral no âmbito da pedagogia,
uma vez que ampliam possibilidades para compreender a relação entre a função da
linguagem e o papel do leitor”. (p.06).
“A investigação da recepção pode ser
articulada em diferentes direções: Pela perspectiva do questionário como
instrumento de pesquisa, a inclusão dos gaps entre as
alternativas de resposta permite captar
a recepção do público ou dos participantes, ao nível da concepção do trabalho.
Pela perspectiva do espectador, a transparência dos procedimentos de trabalho e
de investigação garante a ampliação do repertório artístico através das
indicações teóricas e cênicas sobre o espetáculo. Pela perspectiva do
professor-diretor, a construção do questionário representa uma mediação entre
produção e recepção; ao delimitar o campo de observação, ele oferece ao
espectador uma cartografia do processo de investigação cênica”. (p.06).
“A atuação do professor no espaço da
investigação da recepção teatral é assim caracterizada como mediação ao nível
da configuração do horizonte de expectativas do aluno e da sua interpretação, uma
vez que a identificação dos vazios do texto influenciará sua percepção”.
(p.06).
“[...] os resultados obtidos foram
contrários às expectativas criadas pelo grupo de pesquisa, e isto favoreceu um
novo olhar sobre a cena e o projeto. Outro aspecto relevante no âmbito desta
investigação é que os resultados obtidos através da análise da
recepção do espetáculo e dos processos
de experimentação metodológica foram semelhantes”. (p.06).
“Na fronteira entre a pedagogia e o
teatro, o estudo da recepção permite explorar formas
de inserir o espectador no espaço
espetacular e incluir sua voz na construção da narrativa teatral. Uma
investigação em processo aponta tanto para uma avaliação diagnóstica quanto
para um planejamento que promova travessias estéticas, pedagógicas e teóricas”.
(p.06).
COMENTÁRIO:
Biange inicia o artigo falando das
complexidades da recepção teatral, por termos a dimensão coletiva (grupo) e a
singularidade das percepções individuais. E, em seguida, cita as similaridades
entre formação do espectador e o desempenhos do aluno. Enquanto o importante
para o aluno é: o que ele aprendeu e não se ele aprendeu o que o professor
ensinou. Para o espectador é importante considerar: como ele percebeu e leu a
cena e não se ele captou a intenção do autor.
A interpretação não é neutra. A formação
do espectador depende de consequências importantes como valores estéticos e
políticos. Se há uma carência na informação dentro do ensino de teatro, há
também um desinteresse por parte do aluno. O mesmo ocorre com a recepção, os
espectadores precisam compreender o contexto e as circunstâncias em que a cena
ocorre.
Suzan Bennet acentua “que é no teatro
pós-brechtiano que o público atingiu um papel mais produtivo”. O Teatro de
Brecht rompeu com o imaginário, existe a quebra da quarta parede colocando o
espectador num lugar mais crítico-reflexivo.
Cabral ainda faz uma abordagem a
respeito do horizonte de expectativa e dos gaps. Enquanto o primeiro trata a
recepção pela perspectiva do desejo e da visão do mundo do espectador. O segundo
aponta para uma apropriação do texto pelo leitor, já que com os excessos de
detalhes em um texto de romance atual, por exemplo, faz com que se observem
tantos vazios.
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