Teatralidade
tátil: alterações no ato do espectador – Flávio Desgranges
“O modo de atuação proposto ao
espectador vem sofrendo alterações significativas nos últimos séculos [...]
dando conta do caráter teatral histórico que condiciona a recepção teatral. Pois
a relação do espectador com o teatro está intimamente relacionada com a maneira
[...] de ver-sentir-pensar o mundo.” (p.01, l.01-11).
“[...] o drama burguês de afirma [...]
em contraposição à tragédia neoclássica [...] Essa forma dramática [...] vai [...]
afastando as antigas convenções e estilizações de cena, em conformidade com o
refinamento de seus propósitos estéticos.” (p.01, l.34-44).
“O programa e a apologia do drama
burguês são realizado por dramaturgos [...] que [...] articulam também os tratados
teóricos que defendem e justificam as mudanças na arte teatral. O drama surge
como crítica ao existente, valendo-se de argumentos e soluções formais que
mantêm em tensão as naturezas política e poética de seus princípios.” (p.02,
l.05-14).
“Uma das questões de fundamental
importância para que o drama burguês se afirme está na possibilidade de que
personagens pertencentes a essa classe social se tornem protagonistas das novas
peças.” (p.02, l.38-42).
“Outra importante questão levantada no
período acerca da leitura da Poética se
refere aos efeitos da tragédia em sua relação com o público.” (p. 02, l.69-72).
“Os efeitos do drama burguês estão,
assim, voltados para a correção de comportamentos desregrados, que possam ser
considerados como prejudiciais ao bem-comum e que contrariem os interesses da
sociedade.” (p.02 e 03, l.89-01).
“A relação do espectador com a cena
teatral se vê caracterizada por forte envolvimento emocional, marcada por
identificação irrestrita com o protagonista.” (p.03, l.28-31).
“Para se adequar aos princípios do
drama, em sua busca por caracterizar o palco como fração da própria vida, e
propor ao espectador envolvimento e comoção, a cena precisa abandonar qualquer
recurso em que a teatralidade esteja revelada.” (p.03, l.42-47).
“O ato do espectador tem como eixo
principal a própria imersão no mundo ficcional.” (p.04, l.15-16).
“O drama moderno surge como oposição a
essa empatia por abandono (Brecht,
1978) estabelecida pelo drama burguês. O convite crítico-reflexivo feito ao
espectador [...] pode ser compreendido como um retorno frequente à própria
consciência, deslocando-se da pele do herói e reassumindo seu lugar de
observador [...] fora do mundo fictício, para [...] elaborar um juízo de valor
acerca dos acontecimentos levados à cena.” (p. 04, l.24-34).
“O drama moderno [...] se vale de
variados recursos cênicos narrativos, que se caracterizam pela assunção da
teatralidade, e visam a ruptura com a ilusão do palco dramático.” (p.04,
l.39-42).
“Ao contrário daquela teatralidade surgida
em consonância com os princípios burgueses, na cena moderna o autor se faz
presente, revela as soluções artísticas [...] que utiliza em sua montagem,
mostra a sua concepção de teatro, assume posicionamentos críticos, e estimula o
espectador a fazer o mesmo.” (p.04, l.78-84).
“As alterações no modo de compreender a
vida social [...] se efetivam em tensão com as alterações formais propostas
pelo drama moderno.” (p.05, l.17-23).
“A cena moderna não inviabiliza [...] a
identificação do espectador com o protagonista, mas quer impedir que a empatia
e o mergulho no universo ficcional se dêem de maneira abandonada, sem retorno
reflexivo.” (p. 05, l.36-41).
“Os vislumbres benjaminianos acerca das
mudanças na perceptividade, que se operam em diálogo com a ampliação no campo
de atuação de arte, podem abrir possibilidades de análise das transações
efetivadas pelo teatro pós-dramático (Lehmann, 2007).” (p.05, l.49-54).
“[...] a recepção tátil se efetiva de
modo inverso ao da recepção contemplativa, pois, ao invés de convidar o
espectador a mergulhar na estrutura interna da obra, faz imergir o objeto
artístico no espectador, atingindo-o organicamente.” (p.06, l.05-10).
“A percepção sensível do indivíduo
moderno, destaca Benjamin, está premida por uma vivência urbana marcada pelos
riscos e choques do cotidiano, pela padronização gestual, pelo consciente
assoberbado, e pelo desestímulo à atuação de regiões profundas e sensíveis da
psique.” (p.06, l.20-26).
“A mudança na percepção inibe a produção
de memória [...] e dificulta o acesso frequente aos conteúdos esquecidos,
fundamentais para a elaboração da experiência.” (p.06, l.36-40).
“Um conjunto de imagens, textos,
texturas, sensações, emoções, afetos, mais ou menos definidos, suscitados a
partir da escrita do artista, e que, ainda que não façam parte do texto
organizado pelo autor, se fazem presentes na leitura do espectador.” (p.07,
l.49-54).
“Se o drama moderno se estrutura como
questionamento ao drama burguês, o mesmo se pode compreender com a irrupção da
teatralidade recente, que pauta suas invenções na recusa ao princípio
dramático, que ainda se mantém nas cenas da vanguarda da primeira metade do
século passado.” (p.07, l.68-74).
“No teatro pós-dramático, o que se
observa [...] é uma inversão da relação travada entre espectador e proposta
cênica. Se, no princípio estético do drama [...] a constituição do mundo
fictício convida o espectador ao mergulho, na teatralidade pós-dramática [...]
a recepção opera de modo contrário: o objetivo artístico é que invade o
espectador [...] fazendo surgir sensações, percepções, imagens, entre outras
produções, advindas da experiência pessoal do participante.” (p.08, l.09-27).
COMENTÁRIO:
O texto mostra as mudanças
significativas que o espectador vem sofrendo a partir da questão da recepção
teatral, que está ligada também a sua maneira de ver e pensar o mundo.
Primeiramente, Desgranges aborda questões sobre o drama burguês, o fato da
contraposição à tragédia neoclássica, e também, o fato de que os personagens
pertencentes a esta classe social (à burguesia) se tornem protagonistas das
peças, entre outras questões. Em seguida, ele traz o drama moderno, que por sua
vez, estabelece uma oposição ao drama burguês, colocando o espectador num lugar
pensante, crítico-reflexivo, estimulando o público a encontrar soluções
artísticas, a ter um retorno reflexivo. Por fim, Desgranges traz a noção de
“tátil” para o espectador e sobre como se dá a percepção sensível em um
indivíduo moderno. O objetivo artístico é que invade o espectador fazendo
surgir imagens, sensações entre outras construções.
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