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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Teatralidade tátil: alterações no ato do espectador – Flávio Desgranges


Teatralidade tátil: alterações no ato do espectador – Flávio Desgranges

“O modo de atuação proposto ao espectador vem sofrendo alterações significativas nos últimos séculos [...] dando conta do caráter teatral histórico que condiciona a recepção teatral. Pois a relação do espectador com o teatro está intimamente relacionada com a maneira [...] de ver-sentir-pensar o mundo.” (p.01, l.01-11).

“[...] o drama burguês de afirma [...] em contraposição à tragédia neoclássica [...] Essa forma dramática [...] vai [...] afastando as antigas convenções e estilizações de cena, em conformidade com o refinamento de seus propósitos estéticos.” (p.01, l.34-44).

“O programa e a apologia do drama burguês são realizado por dramaturgos [...] que [...] articulam também os tratados teóricos que defendem e justificam as mudanças na arte teatral. O drama surge como crítica ao existente, valendo-se de argumentos e soluções formais que mantêm em tensão as naturezas política e poética de seus princípios.” (p.02, l.05-14).

“Uma das questões de fundamental importância para que o drama burguês se afirme está na possibilidade de que personagens pertencentes a essa classe social se tornem protagonistas das novas peças.” (p.02, l.38-42).

“Outra importante questão levantada no período acerca da leitura da Poética se refere aos efeitos da tragédia em sua relação com o público.” (p. 02, l.69-72).

“Os efeitos do drama burguês estão, assim, voltados para a correção de comportamentos desregrados, que possam ser considerados como prejudiciais ao bem-comum e que contrariem os interesses da sociedade.” (p.02 e 03, l.89-01).

“A relação do espectador com a cena teatral se vê caracterizada por forte envolvimento emocional, marcada por identificação irrestrita com o protagonista.” (p.03, l.28-31).

“Para se adequar aos princípios do drama, em sua busca por caracterizar o palco como fração da própria vida, e propor ao espectador envolvimento e comoção, a cena precisa abandonar qualquer recurso em que a teatralidade esteja revelada.” (p.03, l.42-47).
“O ato do espectador tem como eixo principal a própria imersão no mundo ficcional.” (p.04, l.15-16).

“O drama moderno surge como oposição a essa empatia por abandono (Brecht, 1978) estabelecida pelo drama burguês. O convite crítico-reflexivo feito ao espectador [...] pode ser compreendido como um retorno frequente à própria consciência, deslocando-se da pele do herói e reassumindo seu lugar de observador [...] fora do mundo fictício, para [...] elaborar um juízo de valor acerca dos acontecimentos levados à cena.” (p. 04, l.24-34).

“O drama moderno [...] se vale de variados recursos cênicos narrativos, que se caracterizam pela assunção da teatralidade, e visam a ruptura com a ilusão do palco dramático.” (p.04, l.39-42).

“Ao contrário daquela teatralidade surgida em consonância com os princípios burgueses, na cena moderna o autor se faz presente, revela as soluções artísticas [...] que utiliza em sua montagem, mostra a sua concepção de teatro, assume posicionamentos críticos, e estimula o espectador a fazer o mesmo.” (p.04, l.78-84).

“As alterações no modo de compreender a vida social [...] se efetivam em tensão com as alterações formais propostas pelo drama moderno.” (p.05, l.17-23).

“A cena moderna não inviabiliza [...] a identificação do espectador com o protagonista, mas quer impedir que a empatia e o mergulho no universo ficcional se dêem de maneira abandonada, sem retorno reflexivo.” (p. 05, l.36-41).

“Os vislumbres benjaminianos acerca das mudanças na perceptividade, que se operam em diálogo com a ampliação no campo de atuação de arte, podem abrir possibilidades de análise das transações efetivadas pelo teatro pós-dramático (Lehmann, 2007).” (p.05, l.49-54).

“[...] a recepção tátil se efetiva de modo inverso ao da recepção contemplativa, pois, ao invés de convidar o espectador a mergulhar na estrutura interna da obra, faz imergir o objeto artístico no espectador, atingindo-o organicamente.” (p.06, l.05-10).
“A percepção sensível do indivíduo moderno, destaca Benjamin, está premida por uma vivência urbana marcada pelos riscos e choques do cotidiano, pela padronização gestual, pelo consciente assoberbado, e pelo desestímulo à atuação de regiões profundas e sensíveis da psique.” (p.06, l.20-26).

“A mudança na percepção inibe a produção de memória [...] e dificulta o acesso frequente aos conteúdos esquecidos, fundamentais para a elaboração da experiência.” (p.06, l.36-40).

“Um conjunto de imagens, textos, texturas, sensações, emoções, afetos, mais ou menos definidos, suscitados a partir da escrita do artista, e que, ainda que não façam parte do texto organizado pelo autor, se fazem presentes na leitura do espectador.” (p.07, l.49-54).

“Se o drama moderno se estrutura como questionamento ao drama burguês, o mesmo se pode compreender com a irrupção da teatralidade recente, que pauta suas invenções na recusa ao princípio dramático, que ainda se mantém nas cenas da vanguarda da primeira metade do século passado.” (p.07, l.68-74).

“No teatro pós-dramático, o que se observa [...] é uma inversão da relação travada entre espectador e proposta cênica. Se, no princípio estético do drama [...] a constituição do mundo fictício convida o espectador ao mergulho, na teatralidade pós-dramática [...] a recepção opera de modo contrário: o objetivo artístico é que invade o espectador [...] fazendo surgir sensações, percepções, imagens, entre outras produções, advindas da experiência pessoal do participante.” (p.08, l.09-27).

COMENTÁRIO:
O texto mostra as mudanças significativas que o espectador vem sofrendo a partir da questão da recepção teatral, que está ligada também a sua maneira de ver e pensar o mundo. Primeiramente, Desgranges aborda questões sobre o drama burguês, o fato da contraposição à tragédia neoclássica, e também, o fato de que os personagens pertencentes a esta classe social (à burguesia) se tornem protagonistas das peças, entre outras questões. Em seguida, ele traz o drama moderno, que por sua vez, estabelece uma oposição ao drama burguês, colocando o espectador num lugar pensante, crítico-reflexivo, estimulando o público a encontrar soluções artísticas, a ter um retorno reflexivo. Por fim, Desgranges traz a noção de “tátil” para o espectador e sobre como se dá a percepção sensível em um indivíduo moderno. O objetivo artístico é que invade o espectador fazendo surgir imagens, sensações entre outras construções. 

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