Atmosfera e recepção
numa experiência com o teatro na Alemanha.
"Até o surgimento da teoria da recepção, no inicio da década de 1970, as discussões sobre os fenômenos artísticos se pautavam, majoritariamente, nas questões forma/ conteúdo, ignorando-se ou menosprezando-se o papel do receptor. Mas não há dúvidas de que espectador adquiriu um novo status, um novo lugar, na teoria que se produz hoje sobre as artes cênicas." (Pg 02)
“Ao drama, mais que outra coisa, importa a possibilidade de operar metáforas, importa envolver o espectador em uma determinada atmosfera.” (Pg 04)
“Para que as coisas e o teatro deixem
de ser vistas por pessoas razoáveis é preciso que o discurso sobre eles também
deixe de ser ‘razoável’. É preciso que a recepção seja vista como livre das
amarras impostas pelo romantismo, que pressupõe o artista genial e o receptor
ignaro.” (Pg 06)
“A cada dia, as diferentes atmosferas
iam se sucedendo, sendo vivenciadas a cada drama/espetáculo/performance, enfim
a cada evento apresentado.” (Pg 07)
“Antes do boom promovido pela teoria da recepção, contudo, as questões concernentes à relação obra/espectador já integravam as reflexões da hermenêutica filosófica e da filosofia estética, em seus 400 anos de percurso (se considerarmos Baumgarten como o fundador, como apontam algumas obras de história da estética).” (Pg 07)
“Mesmo partindo-se do pressuposto de
que ‘toda atmosfera é imprecisa em relação ao seu status ontológico’. Isso
significa dizer que mesmo essa descrição conterá ainda a imprecisão e que uma
descrição, onde estão implicados sujeitos e objetos, sempre parecerá nebulosa e
carente de uma complementação pelo sentir. Por isso clama por um
redimensionamento, por uma rearticulação do uso do termo atmosfera e propõe que
o ‘conceito de atmosfera enquanto conceito de Estética deve unir os diferentes
usos do cotidiano aos seus diferentes caracteres’(Pg 08)
DISPOSIÇÃO PALCO/PLATÉIA AO LONGO DA
HISTÓRIA: LUGAR E PAPEL DO ESPECTADOR
“A estrutura das artes
cênicas,desenvolvida pelos gregos,determinou os princípios básicos da relação
espetáculo/espectador que vigoram até hoje,principalmente no que se refere à
arquitetura teatral”.(P. 180)
“Atravessando-se o
portal que separa a Idade Média dos novos tempos, passando pela esfera do
Humanismo e da Renascença, perceber-se-á, como aponta Kindermann, que apesar do
empenho em se resgatar o conhecimento da era antiga, quase não há registros da
disposição circular outrora predominante” (p. 180).
“Também os lugares especiais destinados
à nobreza,o publico comum era mantido a certa distância,tendência que se pode
verificar em outros palcos franceses e que permaneceu até século XVI” (...).(p.
183)
“Dando continuidade a também predominante
separação hierárquica, a participação do público na representação da vida dos
heróis, da nobreza representada nas tragédias e comédias, passou a ser
praticamente regida pelos nobres presentes e bem acomodados em seus
privilegiados camarotes à frente e nos proscênios laterais” (p. 184 e 185).
"A aristocracia
do período de Luís XIV impunha, assim, um conceito de disposição e
comportamento muito distante dos praticados no período shakespereano, no qual
as platéias manifestavam-se com total liberdade e veemência" (p. 185).
"A reaproximação do público com o
palco, no projeto de Fchs, se dava através do proscênio anfiteatral. Além
disso, o palco foi dividido em três partes: um alto e largo proscênio, um palco
principal, também alto e um palco de fundo." (p. 187)
“Muitos destes projetos, contudo, não
foram concretizados por falta de recursos. Porém, os projetos arquitetônicos
revelavam um espírito exatamente inquieto e a vontade de ‘reanimaro’
espectador.” (p.188)
O espaço da pedagogia na investigação
da recepção do espetáculo.
“A complexidade da recepção teatral
reside na polaridade entre sua dimensão coletiva (um grupo de pessoas
assistindo a um espetáculo) e a singularidade das percepções individuais, uma
vez que aqui se inter-relacionam distintas áreas do conhecimento: ética,
psicologia, sociologia, filosofia (as mais comuns a qualquer processo/produto
artístico).”
“Portanto, considerar a recepção e a
interpretação como processos baseados em valores estéticos e políticos, traz
conseqüências importantes para a formação do espectador, uma vez que não se
pode mais alegar uma natureza a – histórica do conhecimento, nem contar com um
modelo fixo a ser seguido para valorizar algo.”
O argumento central de Wolfgang Iser é
que não podemos achar um significado fixo no texto literário nem projetar nosso
significado no mesmo. Devemos construir o significado com a ajuda do texto. Um
trabalho de criação, segundo Iser, tem dois pólos: O artístico (o texto) e o
estético (a realização do texto pelo leitor).”
“O papel do professor, além de
identificar um texto aberto para o trabalho em grupo, está também em dirigir a
atenção dos participantes para estes vazios do texto (mesmo que ele resulte da
criação do grupo).”
“Uma investigação em
processo aponta tanto para uma avaliação diagnosticada quanto para um
planejamento que promova travessias estéticas, pedagógicas e teóricas.”
Performance Recepção Leitura - Paul Zumthor
“Estou
particularmente convencido de que a idéia de performance deveria ser amplamente
estendida; ela deveria englobar o conjuntos de fatos que compreende, hoje em
dia, a palavra recepção, mas relaciono-a ao momento decisivo em que todos os
elementos cristalizam em uma e para uma recepção sensorial – um engajamento do
corpo.” (Pag. 22)
“[...]
tratando-se da presença corporal do leitor de “literatura”, interrogo-me sobre
o funcionamento, as modalidades e o efeito (em nível individual) das
transmissões orais da poesia. ” (Pag. 31)
“Se um fato observado em performance é, por motivos
práticos, transmitido, como objeto científico, por impressão ou conferência,
então de maneira indireta e segunda, a forma se quebra. Neste sentido, a
performance é para esse etnólogos uma noção central no estudo da comunicação
oral.”(Pag. 33)
“Recorrer à
noção de performance implica então a necessidade de reintroduzir a consideração
do corpo no estudo da obra. Ora, o corpo (que existe enquanto relação, a cada
momento recriado, do eu ao seu ser físico) é da ordem do indizivelmente
pessoal.” (Pag. 45)
“(...) não
somente o conhecimento se faz pelo corpo mas ele é, em seu princípio,
conhecimento do corpo. (...) Antepredicativo
(...) se trata de uma acumulação de conhecimentos que são da ordem da
sensação (...) uma memória do corpo.”(Pag. 91 e 92)
“A voz é uma (...) ruptura da clausura do corpo.
Mas ela atravessa o limite do corpo sem rompê-lo; ela significa o lugar de um
sujeito que não se reduz à sua localização pessoal.” (Pag. 97 e 98)
“ O eu só importa pelo que ele denota: a
saber, que o encontro da obra e de seu leitor é por natureza estritamente
individual, mesmo se houver uma pluralidade de leitores no espaço do tempo.”(Pag. 64)
“O retorno do homem concreto. É nessa perspectiva
que tento perceber que na minha leitura dos textos das quais extraiu minha
alegria está perto do meu corpo.” (Pag. 73)
“Nesse sentido não se pode duvidar de que estejamos
hoje no linear de uma nova era da oralidade, sem dúvida muito diferente do que
foi a oralidade tradicional; no seio de uma cultura no qual a voz, em sua
qualidade de emanação do corpo, é um motor essencial da energia coletiva.” (Pag. 73)
“O que nos fica é que essa variações históricas não
concernem ao essencial. Transmitida a obra pela voz ou pela escrita,
produzem-se entre elas e seu público, tantos encontros diferentes quanto
diferentes ouvintes e leitores. A única dissemetria entre esses dois modos de
comunicação se deve ao fato de que a oralidade permite a recepção coletiva.” (Pag. 65)
Redefinições nos
estudos de recepção/relação teatral.
“O vocábulo recepção, fortemente
marcado pela teoria da informação, parecia contradizer a atividade produtiva do
espectador, a concepção de que, em seu processo de apreensão, ele não apenas
“recebe”, mas é corresponsável pelos sentidos da obras”
“para o esclarecimento desse ponto de
vista, cabe distinguir os estudos de recepção em dois tipos: um diretamente
vinculado à estética acolhida de certas obras por um grupo num determinado
período; outro, mais desenvolvido pela semiótica teatral, destinado a
investigar os processos mentais, intelectuais e emotivos do espectador.”
“Pavis chega a considerar a encenação
como uma leitura em público, já que o texto dramático não tem um leitor
individual, e sim uma leitura possível e coletiva, proposta pela encenação.”
“Pavis chegar a considerar a encenação
como uma leitura em público, já que o texto dramático não tem um leitor
individual, e sim uma leitura possível e coletiva, proposta pela encenação”
“Será necessário definir o objeto
estético pela experiência estética e a experiência estética pelo objeto
estético.”
“ O drama burguês utiliza—se deste potencial de
aprendizagem, já presente nos efeitos da tragédia heroica, com o intuito de
ampliá-lo (com adaptações),estabelecendo uma tensão entre a nova forma e os
propósitos da burguesia em ascensão” (p.2)
“ A catarse aristotélica por sua vez, passa a ser compreendida como vazão a sentimentalidade, a purgação entendida como correção pelas lágrimas.” (p.3)
“As peripécias do protagonista são cuidadosamente concebidas de maneira a produzirem importantes lições para o público” (p.3)
“O ato do espectador tem como eixo principal a própria imersão no mundo ficcional.O modo de concepção das obras de arte, em consonância com o modo de compreensão do ato de leitura, indica a busca por intensificar a atividade do espectador, partindo dos próprios parâmetros de recepção estética em voga no período.” (p.4)
“Esses movimentos de ir e vir do espectador-que, por empatia com o protagonista, adentra no interior da obra ficcional, e, ante as interrupções da lógica dramática operadas pelos recursos cênicos narrativos (épicos), se distancia da ação dramática, e retorna à própria consciência para empreender um ato propriamente autoral e analítico- caracterizam o efeito estético proposto pelo drama moderno.” (p.4)
“A teatralidade assumida rompe com a ilusão do mundo-palco, propondo que o espectador se distancie da ficcionalidade, se descole da pele do herói e retorne à própria consciência.” (p.5)
“ O objeto como que avança sobre o indivíduo, toca-lhe o íntimo e, de maneira inesperada, faz surgir conteúdos esquecidos, relacionados com a memória involuntária,” (p.6)
“O encontro com a arte se coloca, desde então, para Benjamin, fundamentalmente vinculado com a proposição e a produção de experiências.” (p.6)
“ No teatro pós-dramático, o que se observa [...] é uma inversão travada entre espectador e proposta cênica.” (p.8)
Uma incursão pela estética da recepção
“Muito comentada, pouco conhecida, a estética da
recepção ainda não expandiu todas suas possibilidades entre nós.” (Pg 01)
“A recepção não é uma dimensão individual, mas um
fenômeno coletivo, resultante das manifestações advindas das interpretações
singulares ou grupais, dimensionada através das práticas de leitura e
agenciamentos históricos efetuados sobre textos e autores.” (Pg 01)
“Já apontado por Jauss anteriormente, o prazer
enfativaza a materialidade sensível do processo artístico, as constituintes
intrínsecas à arte que, irredutíveis quando da experiência estética, reverberam
sobre o corpo do leitor/ espectador. Ignorá-las é fazer-se de cego (ou surdo ou
mudo) ás percepções e sensações originárias da obra, razão de ser de sua
produção e fruição.” (Pg 02)
“Entre outros procedimentos, Jauss recuperou a
aristotélica khatarsis enquanto dimensão comunicativa subjacente à obra
artística, salientada como esfera onde os fenômenos de identificação e empatia
vão produzir-se.” (Pg 02)
“Na acepção
grega de fazer, a poiesis implica no prazer que sentimos como
realizadores da obra (ou de sua leitura), enquanto instância de instalação e
apropriação do mundo exterior ( “ sentir-se em casa”, nas palavras de Hegel),
através da qual se alcança um conhecimento diverso daquele infundido pela
ciência e mais amplo que aquele dirigido à finalidade produtiva, caso do
artesanato.” (Pg 02)
“A aisthesis, por sua vez, implica na dimensão de
percepção reconhecedora ou de reconhecimento perceptivo, já apontado como “pura
visibilidade”, “visão intensificada e sem conceito”, “da densidade do ser”,
“pregnância perceptiva complexa”, segundo alguns autores que tentaram
captá-la.” (Pg 04)
“E a katharsis, conceito colhido em Aristóteles e
Geórgias, através do qual nos deixamos levar pelo engano ou artifício,
partícipes de um jogo capas de infundir quer uma liberação da psique quer uma
mediação de apreensão que alivia o sujeito das normas de ação e julgamentos,
acima dos interesses imediatos e implicações advindas do senso-comum.” (Pg 04)
“De modo que a recepção, na atualidade, diz
respeito a um sem número de agenciamento no vasto território da cena,
apresentando subsídios quer para a pedagogia quer para a história, quer para a sócio
semiótica quer para a análise dos discursos, fomentando plataformas questão
alargando os estudos teatrais.” (Pg 04)
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