TEATRALIDADE TÁTIL: ALTERAÇÕES NO ATO DO
ESPECTADOR
Autor: Flávio Desgranges
O
modo de atuação proposto ao espectador sofre alteração/modificação a cada
época, a cada geração, pois a relação do produtor e platéia vem de acordo com a
maneira própria do ver-sentir-pensar do contexto da época.
O
Drama surge como crítica ao existente, valendo-se de argumentos e soluções
formais quem mantêm em tensão as naturezas política e poética de seus
princípios. Portanto, a noção que se mantém é que a poesia dramática se
caracterizaria pelo ensinamento que pode proporcionar aos espectadores, que
poderiam aprender com os erros cometidos pelo herói, advém já de uma
reinterpretação de Aristóteles realizada pelos
teóricos renascentistas. A fábula é também outro exemplo de ferramenta
de conduta de vida, um exemplo negativo do qual se podem tirar lições.
Os
efeitos do drama burguês estão, assim, voltados para a correção de
comportamentos desregrados, que possam ser considerados como prejudiciais ao
bem-comum e que contrariem os interesses da sociedade. No drama burguês o trama
está voltado prioritariamente para a apresentação e a recriminação de falhas
individuais, como a incapacidade de organizar seus apetites irracionais seus
desejos mundanos, e a valorização do amor familial e do comportamento
respeitoso entre os membros do lar. A relação do espectador com a cena teatral
se vê caracterizada por forte envolvimento emocional, colocada a pele do herói,
e vivenciando as suas dores, sofrimentos, agruras e também suas alegrias, descobertas.
O
palco burguês é uma fração da vida com comoção e envolvimento do espectador. A
comoção vivida pela personagem precisa ser cuidadosamente construída, de modo
que o público possa acompanhar o herói. O palco dramático se apresenta como uma
representação sintética da vida social.
O
drama moderno surge para se opor ao drama burguês; no drama moderno a
identificação com a personagem não está inviabilizada, mas a empatia não se
efetiva de modo irrefletido. O mergulho no interior do universo ficcional se dá
ainda via identificação com a protagonista.
No
drama moderno vale os variados recursos cênicos narrativos, que se caracterizam
com a assunção da teatralidade, visando a ruptura com ilusão do palco
dramático. Ao contrário daquela teatralidade surgida em consonância com os
princípios burgueses, na cena moderna o autor se faz presente, revela as
soluções artísticas, expõe os recursos cênicos que utiliza em sua montagem,
mostra a sua concepção de teatro.
Com
a teatralidade pós-dramática se refuta o princípio dramático, não opera mais
prioritariamente por empatia e imersão do universo ficcional criado pelo autor.
O que se observa no teatro pós-dramático é uma inversão da relação travada
entre espectador e proposta cênica.
No espetáculo
pós-dramático o espectador não se pergunta ‘’o que isto quer dizer?’’, mas sim
‘’ o que está acontecendo comigo?’’ o que lhe solicita disponibilidade para
participar de um jogo que se apresenta de modo inesperado e sem uma seqüência
preestabelecida. A atitude moral proposta ao espectador pelo drama moderno se
vê radicalizada na cena pós-dramática
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