Fichamento do artigo Notas sobre a experiência e o saber de experiência de Jorge Larrosa Bondía, publicado em Conferência proferida no I Seminário Internacional de Educação de Campinas, traduzida e publicada, em julho de 2001, por Leituras SME; Textos-subsídios ao trabalho pedagógico das unidades da Rede Municipal de Educação de Campinas/FUMEC.
“Costuma-se
pensar a educação do ponto de vista da relação entre a ciência e a técnica ou,
às vezes, do ponto de vista da relação entre teoria e prática. Se o par
ciência/técnica remete a uma perspectiva positiva e retificadora, o par
teoria/prática remete sobretudo a uma perspectiva política e crítica. [...] nesta
última perspectiva tem sentido a palavra “reflexão” e expressões como “reflexão
crítica”, “reflexão sobre prática ou não prática”, “reflexão emancipadora” etc.
[...] as pessoas que trabalham em educação são concebidas como sujeitos técnicos
que aplicam com maior ou menor eficácia as diversas tecnologias pedagógicas
produzidas pelos cientistas, pelos técnicos e pelos especialistas, na segunda alternativa
estas mesmas pessoas aparecem como sujeitos críticos que, armados de distintas
estratégias reflexivas, se comprometem, com maior ou menor êxito, com práticas
educativas concebidas na maioria das vezes sob uma perspectiva política.”. (p.
20, l. 1–19).
“[...],
pensar a educação a partir do par experiência/sentido [...].” (p. 20, l.
29-30).
“[...]
a partir da convicção de que as palavras produzem sentido, criam realidades e,
às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. [...]Aristóteles
definiu o homem como zôon lógon échon. [...]O homem é um vivente com palavra. E
isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa,
ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é
enquanto palavra, que todo humano tem a ver com a palavra, se dá em palavra,
está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é o
homem, se dá na palavra e como palavra. [...].” (p. 20-21, l. 35-32).
“[...]
a experiência é, em espanhol, “o que nos passa”. Em português se diria que a experiência
é “o que nos acontece”; em francês a experiência seria “ce que nous arrive”; em
italiano, “quello che nos succede” ou “quello che nos accade”; em inglês, “that
what is happening to us”; em alemão, “was mir passiert.”. (p. 21, l. 55-61).
“A
experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. [...].”. (p.
21, l. 61-62).
“[...].A
informação não é experiência. [...]experiência é que é necessário separá-la da
informação. [...] o saber de experiência é que é necessário separá-lo de saber coisas,
tal como se sabe quando se tem informação sobre as coisas, quando se está
informado. É a língua mesma que nos dá essa possibilidade.”. (p. 21-22, l.
72-14).
“[...]
“vivemos numa “sociedade de informação”. [...] sinônima de “sociedade do
conhecimento” ou até mesmo de “sociedade de aprendizagem”. [...], a
intercambialidade entre os termos “informação”, “conhecimento” e “aprendizagem”.
Como se o conhecimento se desse sob a forma de informação, e como se aprender
não fosse outra coisa que não adquirir e processar informação. [...], o que eu
quero apontar aqui é que uma sociedade constituída sob o signo da informação é
uma sociedade na qual a experiência é impossível.”. (p. 22, l. 24-45).
“Em
segundo lugar, a experiência é cada vez mais rara por excesso de opinião.
[...].Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre
que nos sentimos informados. [...].”. (p. 22, l. 53-55).
“Benjamin
dizia que o periodismo é o grande dispositivo moderno para a destruição
generalizada da experiência. [...], e o periodismo não é outra coisa que a
aliança perversa entre informação e opinião. [...] E o fato de o periodismo
destruir a experiência é algo mais profundo e mais geral do que aquilo que
derivaria do efeito dos meios de comunicação de massas sobre a conformação de
nossas consciências. [...] “aprendizagem significativa”. [...] opinião seria como
a dimensão “significativa” da assim chamada “aprendizagem significativa”. A
informação seria o objetivo, a opinião seria o subjetivo, ela seria nossa reação
subjetiva ao objetivo. [...].”. (p. 22-23, l. 64-13).
“[...],a
experiência é cada vez mais rara, por falta de tempo. [...].A velocidade com
que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que
caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre
acontecimentos. [...].O sujeito moderno não só está informado e opina, mas
também é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso
impenitente, eternamente insatisfeito. Quer estar permanentemente excitado e já
se tornou incapaz de silêncio. [...],a velocidade e o que ela provoca, a falta
de silêncio e de memória, são também inimigas mortais da experiência.”. (p. 23,
l. 26-50).
“[...].
Com isso, também em educação estamos sempre acelerados e nada nos acontece.”.
(p. 23, l. 71-72).
“[...],a
experiência é cada vez mais rara por excesso de trabalho. [...].”. (p. 23, l.
73-74).
“[...].
O sujeito moderno se relaciona com o acontecimento do ponto de vista da ação.
Tudo é pretexto para sua atividade. [...].Nós somos sujeitos ultra-informados,
transbordantes de opiniões e superestimulados, mas também sujeitos cheios de
vontade e hiperativos. [...].”. (p. 24, l. 24-38).
“Em
qualquer caso, seja como território de passagem, seja como lugar de chegada ou
como espaço do acontecer, o sujeito da experiência se define não por sua
atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua
disponibilidade, por sua abertura. [...].”. (p. 24, l. 75-80).
“Do
ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa maneira
de pormos), nem a “o-posição” (nossa maneira de opormos), nem a “imposição” (nossa
maneira de impormos), nem a “proposição” (nossa maneira de propormos), mas a
“exposição”, nossa maneira de “ex-pormos”, com tudo o que isso tem de
vulnerabilidade e de risco. Por isso é incapaz de experiência aquele que se
põe, ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas não se “ex-põe”. [...].”. (p.
25, .1-9).
“[...]
A palavra experiência vem do latim experiri,
provar (experimentar). A experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma
relação com algo que se experimenta, que se prova. O radical é periri, que se encontra também em
periculum, perigo. A raiz indo-européia é per,
com a qual se relaciona antes de tudo a idéia de travessia, e secundariamente a
idéia de prova. Em grego há numerosos derivados dessa raiz que marcam a
travessia, o percorrido, a passagem: peirô,
atravessar; pera, mais além; peraô, passar através, perainô, ir até o fim; peras, limite. Em
nossas línguas há uma bela palavra que tem esse per grego de travessia: a
palavra peiratês, pirata. [...]. A
experiência é a passagem da existência, a passagem de um ser que não tem essência
ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “ex-iste” de uma forma sempre
singular, finita, imanente, contingente. [...].”. (p. 25, l. 15-37).
“[...]
outro componente fundamental da experiência: sua capacidade de formação ou de
transformação. É experiência aquilo que “nos passa”, ou que nos toca, ou que
nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma. [...].”. (p. 25-26,
l. 79-3).
“Se
a experiência é o que nos acontece, e se o sujeito da experiência é um
território de passagem, então a experiência é uma paixão. [...].”. (p. 26, l.
6).
“[...].
Na paixão, o sujeito apaixonado não possui o objeto amado, mas é possuído por
ele. [...].”. (p. 26, l. 45-47).
“Na
paixão se dá uma tensão entre liberdade e escravidão, no sentido de que o que
quer o sujeito é, precisamente, permanecer cativo, viver seu cativeiro, sua
dependência daquele por quem está apaixonado. [...]. A paixão tem uma relação
intrínseca com a morte, ela se desenvolve no horizonte da morte, mas de uma
morte que é querida e desejada como verdadeira vida, como a única coisa que
vale a pena viver, e às vezes como condição de possibilidade de todo
renascimento.”. (p. 26, l. 51-68).
“[...].A
experiência funda também uma ordem epistemológica e uma ordem ética. O sujeito
passional tem também sua própria força, e essa força se expressa produtivamente
em forma de saber e em forma de práxis. [...].”. (p. 26, l. 78-81).
“[...].
O conhecimento é basicamente mercadoria e, estritamente, dinheiro; tão neutro e
intercambiável, tão sujeito à rentabilidade e à circulação acelerada como o
dinheiro.”. (p.27, l. 12-16).
“Em
contrapartida, a “vida” se reduz à sua dimensão biológica, à satisfação das
necessidades [...], à sobrevivência dos indivíduos e da sociedade. Pense-se no
que significa para nós “qualidade de vida” ou “nível de vida”: nada mais que a
posse de uma série de cacarecos para uso e desfrute.”. (p. 27, l. 20-26).
“[...]
a mediação entre o conhecimento e a vida não é outra coisa que a apropriação utilitária,
a utilidade que se nos apresenta como “conhecimento” para as necessidades que
se nos dão como “vida” e que são completamente indistintas das necessidades do
Capital e do Estado.”. (p. 27, l. 27-32).
“[...].Não
está, como o conhecimento científico, fora de nós, mas somente tem sentido no
modo como configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em
definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo, que é por sua vez uma
ética (um modo de conduzir-se) e uma estética (um estilo). [...], ninguém pode
aprender da experiência de outro, a menos que essa experiência seja de algum modo
revivida e tornada própria.”. (p.27, l. 67-74).
“[...].A
experiência já não é o meio desse saber que forma e transforma a vida dos
homens em sua singularidade, mas o método da ciência objetiva, da ciência que
se dá como tarefa a apropriação e o domínio do mundo. [...]mundo nos mostra sua
cara legível, a série de regularidades a partir das quais podemos conhecer a
verdade do que são as coisas e dominá-las. [...],uma acumulação progressiva de
verdades objetivas que, no entanto, permanecerão externas ao homem. [...].”.
(p. 28, l. 13-30).
“Se
o experimento é genérico, a experiência é singular. Se a lógica do experimento
produz acordo, consenso ou homogeneidade entre os sujeitos, a lógica da
experiência produz diferença, heterogeneidade e pluralidade. [...].Se o
experimento é repetível, a experiência é irrepetível, sempre há algo como a primeira
vez. Se o experimento é preditível e previsível, a experiência tem sempre uma
dimensão de incerteza que não pode ser reduzida. Além disso, posto que não se
pode antecipar o resultado, a experiência não é o caminho até um objetivo
previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas é uma abertura para o
desconhecido, para o que não se pode antecipar nem “pré-ver” nem “pré-dizer”.”.
(p. 28, l. 47-69).
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