VII Seminário PIBID-UFBA: Ressignificar a
Formação Docente
O
PIBID Teatro modificando a cena no Colégio Serravalle
Regina Helena Espirito Santo
Introdução
O Colégio Estadual Raphael Serravalle
é uma escola da rede pública do Estado da Bahia, localizada em Salvador, no
Itaigara. A escola abriga cerca de 2.800 alunos, divididos em Ensino Fundamental
e Médio, com 23 salas de aula, em sua capacidade máxima nos três turnos. Além
das salas de aula do ensino regular, oferece espaços pedagógicos específicos,
como salas de língua estrangeira e informática, laboratórios de biologia e
física, biblioteca, sala de apoio aos alunos com necessidades especiais,
quadras poliesportivas e um auditório, com capacidade para cerca de 200
pessoas. Tem uma gestão democrática, apoio do Colegiado Escolar e do Grêmio
Estudantil sendo ainda referência no quesito Inclusão de Alunos com Necessidades
Especiais, com um grande número de surdos, além de outras necessidades
especiais como Síndrome de Dawn, Cegueira e Autismo.
Objetivos
Apesar da
estrutura física privilegiada, a partir das observações do interior da escola,
é possível entender o visível desencantamento em que se acham os sujeitos
envolvidos na comunidade escolar. Remonta a um modelo antiquado de arquitetura,
mais próxima de um presídio, com muros altos e grades, construída para vigiar e
punir, de acordo com Focault (1977). É evidente que a escola não corresponde
às expectativas dos jovens e vai
perdendo cada vez mais sua função social. O objetivo do PIBID Teatro no
Serravalle é modificar essa perspectiva.
Referencial
Teórico
É possível
sentir a gravidade da crise que atinge a Educação e se reflete nas relações
interpessoais presentes na instituição escolar, sendo notificados pela imprensa
os incidentes desagradáveis que demonstram como a violência permeia essas
relações. Embora pareça reflexo natural do cotidiano da época atual, o aumento
do individualismo e da aspereza no trato com os outros, não pode deixar de ser
percebido por nós, educadores afinados com o pensamento de Courtney (1980), que
defende a humanização como finalidade da educação neste novo século.
Richard Courtney (1980, p.
4) afirma que:
Precisamos proporcionar uma educação que possibilite os homens
desenvolverem suas qualidades humanas. É esta a maior necessidade de nosso
tempo. A crescente especialização de nossa sociedade científica tende a não se
concentrar nas qualidades essencialmente humanas. Tanto em nossa educação
quanto em nosso lazer, precisamos cultivar o ‘homem total’ e nos concentrarmos
nas habilidades criativas do ser humano.
Visando
uma nova perspectiva apontada por pedagogos como Freire (1996), Morin (2003) e
a proposta de uma educação dialógica, com base na Pedagogia do Teatro que
buscamos em nossa prática, têm como um de seus objetivos substituir a
autoridade intelectual e moral pela interação e investigação. É nesse contexto
educacional que o Colégio Estadual Raphael Serravalle se articula em parceria
com o subprojeto de Teatro do PIBID da UFBA, Com os bolsistas Sergio, Liliane,
Flora, Arlani e Adriano, sob a
supervisão da prof. Regina. O relato se refere ao período de agosto de
20 a setembro de 2014.
Metodologia
Durante o Matutino, funciona o Ensino
Fundamental II, com as séries do 6º ao 9º Ano, distribuídos em salas com cerca
de 40 alunos. Nesse mesmo turno são realizadas as Oficinas de Teatro do Ensino
Médio Inovador, salas com no máximo 20 alunos desse outro nível, que possuem
aulas regulares no Vespertino. No Noturno temos o Ensino Médio, onde as ações
do PIBID são mais efetivas nas turmas de 1º Ano. São turmas especiais por
agregarem uma diversidade muito grande de alunos: jovens trabalhadores, idosos
que abandonaram os estudos há muito tempo e alunos com necessidades especiais
como deficientes auditivos, deficientes intelectuais e autistas.
A metodologia utilizada pelos bolsistas tem como
foco principal os jogos teatrais, sempre adaptados à realidade de cada turma,
considerando seus conhecimentos prévios e interesses, bem como especificidades
quanto à idade e presença de alunos com necessidades especiais. Os jogos
teatrais vão além das questões pedagógicas e alcançam instâncias mais
profundas, atuando sobre questões
subjetivas relacionadas ao medo, ao fracasso, à perda. Diante disso
pensamos que o teatro pode de alguma maneira ajudar o adolescente a trilhar o
caminho na descoberta de si mesmo e a lidar com as possíveis dificuldades que
surjam durante esse processo, de acordo com Viola Spolin (1982).
A respeito da prática teatral para atores
e não atores, como é o caso da nossa experiência em sala de aula com o teatro,
Augusto Boal insiste que deve ser empreendida por todos, já que otimizará um
conhecimento sobre si próprio, além de ter um papel relevante na construção da
cidadania. O autor pergunta:
“Quantos de nós somos capazes de olhar no
espelho e de nos ver realmente como somos ou como queremos ser, e não como
querem que sejamos? Talvez com o espelho do teatro, esta imagem permita
diminuir a distância entre o real e o imaginário” (Boal, 1977, p.14).
Cada bolsista, com apoio da supervisão, constrói seu plano de ação,
elegendo seus objetivos a curto e longo prazo, baseando sua prática também nas
suas experiências exitosas anteriores e reorientando as etapas de acordo com
avaliações contínuas dos resultados (diários de bordo, rodas de conversas e
outras produções orais e escritas) que acompanham todo o seu processo de
trabalho.
A maioria das aulas segue um modelo que pode ser resumido em: atividades
de integração, preparação corporal e vocal com alongamentos, jogos de
concentração e atenção, jogos teatrais específicos e improvisação. Os temas são
escolhidos coletivamente de acordo com o cotidiano doas alunos e propostos
outros que atendem aos projetos interdisciplinares da escola. A cada final de
sessão, abre-se a roda de conversa, onde todos são instados a opinarem sobre os
resultados e colaborarem com sugestões para o melhor desenvolvimento das
atividades e crescimento do grupo. Os participantes são então convidados a
registrarem tudo que ocorreu naquela sessão, inclusive suas sensações e
mudanças comportamentais em seus diários de bordo, como tarefa a ser entregue
na sessão seguinte. A cada semana, a critério do condutor do grupo, poderão ser
lidos alguns desses relatórios, antes de se iniciar nova experiência. Muitas
das sessões ainda incluem produção de formas animadas, textos dramáticos,
cenários e adereços para as cenas improvisadas, que poderão ser selecionadas
para apresentações a um público mais amplo, dentro ou fora da escola.
Conclusões
A meu ver, se a escola conseguir
seduzir o estudante para o desejo de aprender, seja ela criança, adolescente ou
adulto, já estará dando importantes passos na concretização de uma educação
enquanto compromisso social. Dessa forma, Assmann (1999, p. 29) faz um
significativo comentário sobre as características da escola, que, diante de
tanta novidade e informação, precisa possibilitar ao estudante reconhecê-la
como um espaço de descobertas, conquistas e aprendizagem, proporcionando prazer
e ternura:
O ambiente pedagógico tem de
ser lugar de fascinação e inventividade. Não inibir, mas propiciar, aquela dose
de alucinação consensual entusiástica requerida para que o processo de aprender
aconteça como mixagem de todos os sentidos. Reviravolta dos
sentidos-significados e potenciamento de todos os sentidos com os quais
sensoriamos corporalmente o mundo. Porque a aprendizagem é, antes de mais nada,
um processo corporal. Que ela venha acompanhada de sensação de prazer não é, de
modo algum, um aspecto secundário.
Estamos certos que conseguimos essa
sedução dos estudantes com as ações do PIBID Teatro no Colégio Raphael
Serravalle.
Referências Bibliográficas
ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à
sociedade aprendente. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
BOAL,
Augusto. Teatro do oprimido e outras
poéticas. 2. ed. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
COURTNEY, Richard. Jogo, teatro & pensamento.
São Paulo: Perspectiva: 1980.
FREIRE,
Paulo. A pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 8.
ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
SPOLIN, Viola. Improvisação para
o teatro. Tradução de Ingrid Koudela e Eduardo Amos. São Paulo:
Perspectiva,1982.
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