RELATO
DE UMA EXPERIENCIA:
Ao adentrar a sala de aula de uma escola
pública da rede municipal, localizada na periferia de Salvador, com alunos do
4º ano do ensino fundamental 1 , me deparei com a realidade vivida pelos
docentes da área de artes num geral.
As
dificuldades enfrentadas por professores de teatro, por exemplo, chega a ser
constrangedora. Não existe um espaço e nem materiais apropriado para
desenvolver as atividades, ou seja, não existem recursos para tal. O tempo vem
a ser outro agravante nesse processo. Uma aula tem a duração de 50 minutos,
dentro desse tempo 15 minutos é destinado a receber, acomodar os alunos, arrumar as
cadeiras ao redor da sala, tornando-a espaçosa e propicia para as atividades,
restando apenas 30 a 35 minutos. Isso sem contar na dispersão e no desinteresse
dos alunos, além da evasão escolar, o que acaba fazendo parte do cotidiano da
vida escolar e no desafio do professor de contornar essas situações, buscando
mudanças de paradigmas.
A criatividade e o bom senso, são peças
chaves para tornar a aula atrativa dentro desse processo. Pensando numa atividade que proporcionasse a motivação do grupo, estimulando o
cognitivo e trabalhando o foco do aluno, adotei como conteúdo as formas
animadas, a construção do boneco de jornal, dicas de Ana Maria Amaral no livro
Formas animadas. Também adotei outras técnicas diferenciadas durante o
processo, tais como: a caixa de estímulos de Beatriz Cabral, aplicado de forma
que todos interagissem. Preparei uma caixa enorme com vários objetos e enrolei
num papel de presente. Em um determinado momento da aula, convidei todos a
prestar atenção, pois abriria ali na presença deles aquela encomenda que
deixaram na portaria e pediram que me fosse entregue. Então abri, mostrei o
conteúdo e propus que cada um pegasse um objeto e fazendo de conta que fosse
deles próprios me contasse uma história dessa relação. Resultados positivos num
geral. Usei também os jogos do Fichário
de Viola Spolin, e mais algumas brincadeiras que extrai do meu diário de bordo,
enfim, tudo que fizesse uma ligação com a proposta e viesse a acrescentar um
melhor formato, tornando assim a aula mais atrativa, a fim de alcançar o objetivo
final, o que facilitaria ater a concentração, trazendo ludicidade,
plasticidade, beleza e economia através de uma proposta que despertasse o
interesse dos alunos fazendo-os interagir ao utilizarem o jornal velho como
material didático pela facilidade de aquisição e pela maleabilidade, permitindo
construir além de cenários, figurinos adereços e ainda podendo ser utilizado
como objeto chave tornando possível até a realização da coreografia.
O
resultado notado ao final de cada aula era a vontade de continuar o que gerava
uma grande expectativa na espera pelo próximo encontro. Tudo acontecia por
etapas. No primeiro momento aplicamos exercícios baseado na mímica corporal e
dramática (técnica criada pelo francês Etiene
Decroux), permitindo que os
alunos trabalhassem as articulações em
partes separadas do corpo: (cabeça, pescoço, busto, abdômen, troncos e membros inferiores e superiores),
buscando com isso o autoconhecimento corporal. Estudando também princípios da
anatomia humana numa investida interdisciplinar necessária e ao mesmo tempo trazendo coerência interna a
cena. A partir daí, começamos a
confeccionar os bonecos, usando o jornal em formato de canudo construindo com
esse material: Pernas, braços, troncos e cabeças, assim ao encaixar as partes
formaram o corpo, integralmente atentos às dobradiças, o que facilitaria a
manipulação, facilitando também ações e gestos que se aproximassem das ações dos
seres humanos. Após finalizar essa etapa, desenvolvi atividades para que
houvesse interação grupal, aplicando métodos em que os alunos, pudessem
finalmente estabelecer uma relação dialógica com os colegas através do objeto
animado, usando jogos e exercícios direcionados a essa finalidade, além de
textos e vídeos usados como pretextos para enriquecer as atividades. Foi um momento muito rico. A classe foi
dividida em equipes e a tarefa era criar cenas sobre o índio e a natureza. Os resultados foram surpreendentes. Os grupos
apresentaram improvisações diversificadas, dentro do contexto, variando dos
mais tímidos aos mais desinibidos. O boneco é um objeto que não tem um público
especifico. Ele encanta a todos.
Dessa
etapa, surgiu a aula dramatizada que foi apresentada para todos os alunos do
turno matutino, professores, funcionários e posteriormente para o grupo PIBID
TEATRO.
Partimos para o segundo semestre vivendo
novas experiências e novos processos inclusive externos. Um grupo de bolsistas do PIBID TEATRO teve a
oportunidade de participar da mediação cultural no FIAC (Festival Internacional
de Artes Cênicas). Desenvolvemos algumas atividades com foco no nosso contexto
da pesquisa que é a recepção e aplicamos com os nossos alunos. Estes foram
convidados a em determinado momento conhecer um teatro e suas funcionalidades e
em outro momento a assistir espetáculos onde tiveram toda comodidade, me
referindo á assistência do transporte ao lanche e um retorno do espetáculo
através de um bate papo após a finalização da peça. Atividades como essas são
de extrema importância para o desenvolvimento cognitivo e social do aluno. O
objetivo do curso é de que o espectador conheça o espaço onde acontece o
espetáculo, conheça seus signos, desvende os mistérios e não perca a fantasia.
Além de enriquecer a disciplina do Teatro na Educação.
Chegamos ao final, à mostra didática seria em
um espaço dividido por todas as turmas do PIBID na escola, e cada grupo teria o
tempo de vinte minutos no máximo. Então fui extraindo experiências trazidas das
improvisações, resultados interessantes, atividades com dinâmicas diferenciadas
e assim realizamos uma mostra com á colaboração da turma. Resolvi fazer uma
leitura dramática usando o boneco em diversos momentos, alternando entre a
leitura do texto e algumas instalações. Usei
um texto de minha autoria com o tema
”Faz de conta” onde através do sonho trabalharia dois universos diferentes.
Abordei assuntos como a relação da lua com o mar, tarefas familiares, respeito
às diferenças, obediência, hierarquia e contos mitológicos e outros. Houve uma grande mobilização dos alunos para
participar dos ensaios, inclusive em horários alternados. O resultado final foi
muito bom e esteticamente bonito. Ressalto a importância de trabalhar com o
boneco que nessa experiência fortaleceu o vinculo entre professor-aluno,
aluno-aluno e aluno-boneco e permitiu também trabalhar i interdisciplinaridade
em diversos ângulos, do material reutilizado contribuindo para a limpeza do
meio ambiente, a relação com a aula de história trazendo o tema que seria
abordado na primeira mostra: “O universo indígena”, o estudo do corpo humano
para confeccionar o boneco.
Palavras-chaves: Aluno; estimulo; boneco.
Referencias:
CABRAL, Beatriz Ângela Vieira. O drama como método de ensino. Edições
Mandacaru. Editora Hucitec São Paulo 2006
PARENTE, José. O Papel do Ator no Teatro de
Animação in: O Ator no Teatro de Formas Animadas. Revista MÓIN-MÓIN Revista de
Estudos sabre Teatro de Formas Animadas. Jaraguá do Sul: SCAR/UDESC, ano 1, nº
1.Pp 105-117, 2005
AMARAL, Ana Maria. Teatro de Bonecos no Brasil.
São Paulo: COM ART, 1994.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. São Paulo:
Perspectiva, 2010
SPOLIN, Viola. Jogos Teatrais: O fichário de
Viola Spolin: São Paulo: Perspectiva
2012
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