Teatralidade tátil: alterações no ato do espectador
(Flavio Desgranges)
Ressaltei aqui, especialmente aspecto da teatralidade
recente em que como tentarei descrever, a recepção passa a ser compreendida por
seu caráter de experiência, que para se
efetivar depende de uma disponibilidade distinta do espectador, inaugurando
outro modo participativo. Além de alterar significativamente a noção da obra de
arte que deixa se ser concebido com a aura que a envolvia tradicionalmente. (l.
24 a 33)
A renovação artística que marca a transição da tragédia
classicista e heroica para a forma dramática nascente se faz, pois em tensão
com as lutas da burguesia em ascensão no período. (l. 1 a 5)
O drama surge como
critica ao existente, valendo-se de
argumentos e soluções formais que mantem em tensão as naturezas políticas e
poéticas de seus princípios. (l.11 a 14)
São colocados em jogo deste modo, aspectos fundamentais
do iluminismo: a constituição de homens livres, capazes de traçar seus próprios
rumos, para além de qualquer submissão política; a defesa pelo direito de cada
um à consciência religiosa; e o estabelecimento de bases morais que fundamentem
o progresso da humanidade. (l.18 a 24)
Uma das questões de fundamental importância para que o
drama burguês se afirme está na possibilidade de que personagens pertencentes a
essa classe social se tornem protagonistas das novas peças. (l. 38 a 42)
George Lilo para defender o ponto de vista dos
dramaturgos burgueses, argumenta que o herói trágico não precisa necessariamente
ser um nobre, mas um homem com espirito nobre. (l.48 a 51)
Outra importante questão levantada no período a cerca da leitura da poética se refere aos
efeitos da tragédia em sua relação com o publico. (l.69 a72)
Os efeitos do
drama burguês estão assim voltados para a correção de comportamentos
desregrados, que possam ser considerados como prejudiciais ao bem comum e que
contrariem (l. 89 a 92) os interesses da sociedade. A catarse aristotélica por
sua vez passa a ser compreendida como vazão a sentimentalidade, a purgação
entendida como correção pelas lágrimas (l.1 a 4)
A força dramática da convicção e de persuasão se
estabelece em cena como uma cortina de lágrimas, que será rasgada e revelada
pelos seus meandros, mais tarde, pelos dramaturgos e encenadores modernos. A
relação do espectador com a cena teatral
se ver caracterizada por forte
envolvimento emocional marcada por identificação irrestrita com o
protagonista. Colado a pele do herói cada individuo da plateia vivencia os acontecimentos que constituem a sua
trajetória: suas dores, sofrimentos, agruras e também suas alegrias
descobertas, resoluções. As peripécias do protagonista são cuidadosamente
concebidas de maneira a produzirem importantes lições para o público. (l.24 a 28)
A caracterização
psicológica de cada personagem torna-se
a partir de então fundamental na definição do encandeamento na ação e na
sustentação da coerência da trama. O drama burguês se compõe a partir da
“psico-lógica” em que a constituição dos aspectos individuais torna-se eixo
para a composição da lógica das ações. (l.6 a 13)
O palco dramático se apresenta como uma representação
sintética da vida social, como um universo fechado concebido diante do
espectador, que observa esse pequeno mundo de esguelha como se não tivesse ali.
Impelido a se lançar na corrente da ação dramática a mergulhar por inteiro no ambiente ilusório
cuidadosamente criado pelo autor ( que se faz de ausente) o leitor da cena
observa esse mundo fictício sob o ponto de vista do protagonista. (l 35 a 44)
O ato do espectador tem como eixo principal a própria
imersão no mundo ficcional. (l.15 e16)
O convite crítico-reflexivo feito ao espectador, nesse
caso pode ser compreendido como um retorno frequente a própria consciência,
descolando-se da pele do herói e reassumindo seu lugar de observador, seu ponto de vista fora do mundo
fictício para desse lugar que lhe é próprio, elaborar um juízo de valor a cerca dos acontecimentos levados a cena, ou
seja a identificação com o personagem não esta inviabilizada, mas a empatia não
se efetiva de modo irrefletido (l. 26 a
36)
As brechas no mecanismo dramático rompem com a
ficcionalidade irrestrita e expulsam o espectador da vivencia interior da obra,
lançando-o de volta a própria consciência , convidando-o a desempenhar um ato
propriamente estético-reflexivo.(l. 7 a 12)
Esses movimentos de ir e vir do espectador_ que por
empatia com o protagonista, adentra no interior da obra ficcional, e, ante as
interrupções da lógica dramática operadas pelo recursos cênicos narrativos
(épicos), se distancia da ação dramática e retorna a própria consciência para
empreender um ato autoral e analítico_
caracterizam o efeito estético proposto pelo drama moderno. (l.29 a 37)
A teatralidade assumida rompe com a ilusão do mundo-palco propondo que o espectador se distancie da
ficcionalidade, se descole da pele do herói e retorne a própria consciência. A
cena moderna não se inviabiliza, pois, a identificação do espectador com o
protagonista, mas quer impedir que a empatia e o mergulho no universo ficcional
se deem de maneira abandonada sem
retorno reflexivo.(l. 32 a 41)
No ensaio “A obra de arte na era’’ de sua
reprodutibilidade técnica (Benjamim, 1993), escrito dez anos depois, em 1936, o
filósofo estabelece que a recepção tátil se efetiva de modo inverso ao da
recepção contemplativa, pois, ao invés de convidar o espectador a mergulhar na
estrutura interna da obra, faz imergir o objeto artístico no espectador,
atingindo-o orgânica mente – daí a noção de tátil. (l. 2 a 10)
A percepção sensível do indivíduo moderno destaca
Benjamim, está remida por uma vivência urbana marcada pelo risco e choques do
cotidiano, pela padronização gestual, pelo consciente assoberbado, pelo
desestímulo á atuação de regiões profundas e sensíveis da psique. (l. 20 a 26)
A memória, para o filósofo alemão, constitui-se
justamente pelos fatos significativos que não foram filtrados pelo consciente e
são lançados nas profundezas da psique. Esses conteúdos, ao virem á tona,
trazendo imagens do passado, provocam o indivíduo a se debruçar sobre as
situações vividas e a chocar os ovos da experiência, fazendo nascer deles o
pensamento crítico. (l. 40 a 48)
Somente a recepção
distraída em que o consciente seja surpreendido, pego desatento poderia se
deixar atingir pelo instante significativo em que na relação com o objeto
artístico, o olhar nos é retribuído, nos toca no intimo e faz fugir o
inadvertido trazendo a tona experiências cruciais do passado. (l.18 a 24)
Benjamim não
clama por uma volta nostálgica ao passado, mas saúda outra narratividade;
tomada como uma trama de espaço e tempo que e abre como propicio convidando o
espectador a um mergulho em si mesmo e produzindo uma experiência aurática a
partir de uma experiência não aurática.
(l.6 a 12)
Como vimos o drama moderno, para efetivar as idas e
vindas do espectador_ o mergulho no mundo ficcional via identificação com o
personagem e o retorno a própria
consciência para a efetivação do ato estético _ matem a ação dramática como
eixo da cena, calçada na trama que avança a partir de diálogos e da
constituição psicológica de personagens. (l. 29 a 37)
.
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