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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Teatralidade tátil: alterações no ato de espectador


Teatralidade tátil: alterações no ato de espectador
Flavio Desgranges
O modo de atuação proposto ao espectador vem sofrendo alterações significativas nos últimos séculos, em diálogos estreito com as transformações observadas, tanto nas propostas formais dos artistas, quanto no contexto social dos diversos períodos, dando conta do caráter histórico que condiciona a recepção teatral.  Pois a relação do espectador com o teatro está intimamente relacionada com a maneira, própria a cada época, de ver-sentir-pensar o mundo.
A produção teatral pode ser considerada, desde então, não como obra, mas como objeto artístico, passando a assumir função social bastante diversa daquela compreendida até então.
O mergulho no universo ficcional
A catarse aristotélica por sua vez, passa a ser compreendida como vazão à sentimentalidade, a purgação entendida como correção pelas lagrimas.
A relação do espectador com a cena teatral se vê caracterizada por forte envolvimento emocional, mascada por identificação irrestrita como protagonista.
As peripécias do protagonista são cuidadosamente concebidas de maneira a produzirem importantes lições para o publico. O espectador se vê convidado a vivenciar como herói, não apenas as suas falhas mas, e principalmente, as reprimendas que lhe são impostas no decorrer da trama.
Para se adequar aos princípios de drama, em sua busca por caracterizar o palco como fração da própria vida, e propor ao espectador envolvimento e comoção, a cena precisa abandonar qualquer recuso em que a teatralidade esteja revelada.
A comoção vivida pelo personagem precisa ser cuidadosamente construída, de modo que o publico possa acompanhar o herói. Somente dessa maneira se pode provocar o almejado impacto emocional capaz de “transtornar” o espectador.
O modo de concepção das obras de arte, em consonância com o modo de compreensão do ato de leitura, indica a busca por intensificar a atividade do espectador, partindo dos próprios paramentos de recepção estética em voga no período.
A explicitação do ato estético.
O drama moderno, se vale de variados recursos cênicos narrativos, que se caracterizam pela assunção da teatralidade, e visam a ruptura com a ilusão do palco dramático. O principio dramático se mostra interrompido, problematizado, cada vez que um elemento cênico se revela, cada vez que o teatro se apresenta enquanto tal, quebrando com a logica do drama fechando.
A abordagem social das temáticas quebra necessariamente com a linearidade própria ao principio dramático, pois o trama não está mais circunscrita a uma abordagem fechada, psicológica intersubjetiva dos fatos.
A teatralidade assumida rompe com a ilusão de mundo-palco, propondo que o espectador se distancie da ficcionalidade, se descole da pele do herói e retorne à própria consciência.
A recepção tátil
A percepção sensível do individuo moderno, destaca Benjamim, está premida por uma vivencia urbana marcada pelos riscos e choques do cotidiano, pela padronização gestual, pelo consciente assoberbado, e pelo desestímulo à atuação de regiões profundas e sensíveis da psique.
A mudança na percepção inibe a produção de memória e dificulta o acesso frequente aos conteúdos esquecidos, fundamentais para a elaboração da experiência.
As alterações na percepção solicitariam procedimentos artísticos modificados para provocar a irrupção da memória involuntária. Somente uma recepção distraída, em que o consciente seja surpreendido, pego desatento, poderia se deixar atingir pelo instante significativo em que, na relação com o objeto artístico, o olhar nos é retribuído, nos toca o intimo, e faz surgir o inadvertido, trazendo à tona experiências cruciais do passado.
A falta de logica a priori estabelecida se relaciona com a noção de uma recepção compreendida como experiência, que se constitui na própria junção/criação dos cacos de narrativa, ou em quaisquer jogos propostos pelo artista e realizados pelo espectador em sua relação com o objeto artístico.
Um conjunto de imagens, textos, texturas, sensações, emoções, afetos, mais ou menos definidos, suscitados a partir de escrita do artista, e que, ainda que não façam parte do texto organizado pelo autor, se fazem presentes na leitura do espectador.
A inversão receptiva.
Ainda que essa constituição dramática se efetive no drama moderno com quebras e rupturas frequentes, evitando o abandono do espectador na corrente da ação, o vetor de leitura mantém-se marcado pela identificação, por colar-se a pele do herói, mesmo que para tecer uma analise critica em face dos gestos do protagonista e do contexto histórico-social que determina as atitudes dos personagens.
No teatro pós-dramático, o que se observa – e são justamente as formulações teóricas de Banjamin acerca da recepção tátil que nos possibilita essa análise – é uma inversão da relação travada entre espectador e proposta cênica.
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Ante a teatralidade pós-dramática, o espectador não sobre, mas a partir da proposta do autor – ou mesmo, para além dessa proposta- e o que concebe, ainda que se dê um relação com o texto cênico, se constitui em face da impossibilidade de executar a tarefa de entender o que o autor que dizer, pois não há uma síntese a ser desvendada, mas lances sensoriais, imaginativos e analíticos a serem desempenhados.
A atitude autoral proposta ai espectador pelo drama moderno se vê  radicalizada na cena pós-dramática, já que ato de leitura, para se constituir, a partir de então, solicita uma atitude francamente artística do espectador – toma – do como atuante – que define o próprio percurso de sua leitura, em função da seleção e elaboração dos vários elementos de significação com os quais se relaciona.
Comentário:
No presente texto; Teatralidade tátil: alterações no ato de espectador, Flavio Desgranges perpassa por um período histórico do drama e de relação ator/espectador e mostra como á  teatralidade assumida rompe com a ilusão de mundo-palco, propondo que o espectador se distancie da ficcionalidade.  O que proporciona ao o espectador desempenhar o ato de leitura valendo-se tanto da analise de elementos de significação oriundos do texto cênico proposto pelo autor, quando de conteúdos outros, percebidos, lembrados e criados durante seu percurso de leitura.

   



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