Performance recepção leitura.
Paul Zumthor
Capitulo
1
Introduzir
nos estudos literários a consideração das percepções sensoriais, portanto de um
corpo vivo, coloca tanto um problema de método como de elocução critica. De
saída, é necessário, com efeito, entreabrir conceitos exageradamente voltados
sobre eles mesmos em nossa tradição, permitindo assim a ampliação de seu campo
de referencia.
Muitas
culturas através do mundo condicionam os aspectos não verbais da performance e
a promoveram abertamente como fonte de eficácia-textual. Em outros termos,
performance implica competência.
A
performance se situa num contexto ao mesmo tempo cultural e situacional: nesse
contexto ela aparece como uma “emergência”, um fenômeno que sai desse contexto
ao mesmo tempo em que nele encontra lugar. Algo se criou, atingiu a plenitude e, por ai mesmo, ultrapassa o
curso comum dos acontecimentos.
A
performance e o conhecimento daquilo que se transmite estão ligados naquilo que
a natureza da perfomace afeta a que é conhecido. A performance de qualquer
jeito, modifica o conhecimento. Ela não é simplesmente um meio de comunicação:
comunicando ela o marca.
[...]
o espaço em que se inserem uma e outra é ao mesmo tempo lugar cênico e
manifestação de uma intenção de autor. A condição necessária à emergência de
uma teatralidade performancial é a identificação, pelo espectador-ouvinte, de
um outro espaço: a percepção de uma alteridade espacial marcando o texto. Isto
implica alguma ruptura com o “real” ambiente, uma fissura pela qual, justamente,
se introduz essa alteridade.
Assim
percebida a performance não é uma soma de propriedades de que poderia fazer o
inventário e dar a formula geral. Ela só pode ser apreendiada por intermédio de
suas manifestações especificas. Ela partilha nisso com a poesia ( sem duvida a
poética) um traço definidor fundamental.
Capitulo
2 performance e recepção
A
maior parte das definições de performance põem ênfase na natureza do meio, oral
e gestual.
Entendamos
por cultura a pratica própria a um grupo humano em todos os mínios que implicam
conhecimentos. Compreendida assim, a cultura constitui o fundamento da vida em
sociedade e, inversamente, vida social implica necessariamente cultura.
[...]
performance de signa um ato de comunicação como tal; refere-se a um momento
tomado como presente. A palavra significa a presença concreta de participantes
implicados nesse ato de maneira imediata. Nesse sentido, não é falso dizer que
a performance existe fora da duração. Ela atualiza virtualidades mais ou menos
numerosas, sentidas com maior ou menor clareza.
Não
é menos verdade, no entanto, que toda leitura seja produtividade e que ela gere
um prazer. Mas é preciso reintegrar, nesta ideia de produtividade, a percepção,
o conjunto de percepções sensoriais. A recepção, eu o repito, se produz em
circunstancia psíquicas privilegiadas: performance ou leitura.
Não
há algo que a linguagem tenha criado nem estruturado nem sistema completamente
fechados; e as lacunas e os brancos que aí necessariamente subsistem constituem
um espaço de liberdade: ilusória pelo fato de que só pode ser ocupado por um
instante, por mim, por ti, leitores nômades por votação.
O eu só importa pelo que ele denota:
saber, que o encontro da obra e de seu leitor é por natureza estritamente
individual, mesmo se houver uma pluralidade de leitores no espaço e no tempo.
A
leitura é a percepção, em uma situação transitória e única, da expressão e da
elocução juntas. O texto poético, no patamar de nossa cultura, composta sempre
um elemento informativo (salvo raras
exceções). Ora, a informação assim transmitida pelo texto produz-se em um campo
deitico particular.
Capítulo
3 performance e leitura
A
leitura não é um ato separada nem uma operação abstrata: só há pouco tomamos
consciência disso: a época na qual entramos não está mais em condições de nos
ocultar esse fato. Em todos os horizontes se esboçam os movimentos de uma
desalienação, a longo prazo, da palavra humana; movimentos que, de crise em
crise, não cessam de superar os contrários.
A
“compreensão” que ela opera é fundamentalmente dialógica: meu corpo reage á
materialidade do objeto, minha voz se mistura, virtualmente, à sua. Dai o “prazer do texto”; desse texto ao qual eu
confiro, por um instante, o dom de todos os poderes que chamo eu. O dom, o
prazer transcendem necessariamente a ordem informativa do discurso, que eles
eliminam depois.
A
performance é ato de presença no mundo e em si mesma. Nela o mundo está
presente. Assim, não se pode falar de performance de maneira perfeitamente unívoca e há lugar
para definir em diferentes graus, ou modalidades: a performance propriamente
dita, gravada eplo etnólogo num contexto de pura oralidade; depois uma série de
realizações mais ou menos claras, que se afastam gradualmente desse primeiro
modelo.
Na
leitura, em compreensão, a ação visual se orienta de vez para a decifração de
um código gráfico, não para a observação de objetos circundantes. Para todo
individuo alfabetizado tendo adquirido o habito de ler, a relação entre o
significante e o significado é interiorizada, não transita mais pelo objeto.
O
olho percebe uma fase gratificante contorcida em forma de rosa: simultaneamente
ele olha a flor e lê a frase. A percepção do texto se desdobra. Da maneira mais
banal, a maior parte dos poetas, hoje, imprime seus poemas distribuindo na
pagina espaços vazios e palavras em uma ordem que é significativa, pois cria um
ritmo visual, transformado o poema em um objeto. A leitura se enriquece com
toda a profundeza do olhar.
Capítulo
4 o empenho do corpo.
Da
performance à leitura, muda a estrutura do sentido. A primeira não pode ser
reduzida ao estatuto de objeto semiótico; sempre alguma coisa dela transborda,
recusa-se a funcionar como signo... e todavia exige interpretação: elementos marginais, que se relacionam à linguagem e
raramente codificados, ou situacionais
que se referem á enunciação.
Esse
conhecimento “antepredicativo” está na
base da experiência poética. É por isso que o sentido que percebe o leitor no
texto poético não pode se reduzir á decodificação de signos analisáveis: provém
de um processo indecomponível em movimento particulares.
O
corpo permanece estranho á minha consciência de viver. É o ambiente em que me
desenvolvo. Os fatos corporais não são jamais dados plenamente nem como um
sentimento, nem como uma lembrança: no entanto, não temos senão o nosso corpo
para nos manifestar.
Nossos
“sentidos”, na significação mais corporal da palavra, a visão, a audição, não
são somente as ferramentas de registro, são órgãos de conhecimento. Ora, todo
conhecimento está a serviço do vivo, a quem ele permite persevera no seu ser.
A
linguagem corrente, fora de toda ideia preconcebida do que é a “poesia”,
emprega, ás vezes, a propósito de um texto literário, expressões tais como:
esse poema ou esse romance, ou essa pagina me
fala, me diz.
Tais
são os valores exemplares produzidos pelo uso de voz humana e sua escuta. Elas
só se manifestam, de maneira fortuita e marginal, na cotidianidade dos
discursos ou na expressão informativa; a poesia opera aí a extensão ao
universal. Pouco importa que ela seja ou não entregue á escrita. A leitura
torna-se escuta, apreensão cega dessa transfiguração, enquanto se forma o
prazer, sem igual.
II a
imaginação Critica.
O
sentimento que, necessária e felizmente, temos do passado, esse sentimento que
em geral cada um de nós lenta e laboriosamente adquiriu e afinou, esse
sentimento nos pega pelo pé. É preciso sabe-lo, e dizê-lo. O passado se oferece
a nos como uma mina de metáforas com a ajuda das quais , indefinidamente, nós
nos dizemos.
A
operação de todo historiador é da ordem da arte. Sem dúvida ela se manifesta
mais quando se concentra em textos poéticos, objetos produzidos por uma
formalização segunda e intencional, uma sobredeterminação da linguagem: por ali
mesmo enraizando no que o ser humano possui de menos universalizável e de mais
verdadeiro, entre os impulsos primordiais que nos fazem ser, cada um por si.
[...]
A ciência parte de uma observação ; o saber, de uma experiência que falta
articular em discurso: isto é, em testemunho, pois o saber procede de uma
confrontação comovente com o objeto de um esboço de diálogo com o que ele tem
de único.
[...]
A ciência, nosso ciência, pretende, é verdade, trabalhar na ordem do
necessário; em verdade, na falta de um projeto global ela se abandona ao acaso
e, complementarmente, gera-o; desconfia todavia, como de produtos aleatórios,
da arte e da poesia, das quais provém a única globalidade concebível, mas que
não concerne a ela; a única necessidade verdadeira, mas que ela não saberia
pensar. Entre as duas vertentes dessa contradição: nós, nossos textos e, desejemos,
o amor que lhe trazemos.
[...]
Globalidade implica coesões mais frouxas, menos
convenção, menos relações causais, e um eixo duplo de polarização: em
direção ao passado com o qual nos comprometemos, pesquisadores historiadores; e
em rumo ao próprio ato pelo qual, neste momento, “passamos”.
O
saber é um longo, lento sabor. Espontaneamente, nossos contemporâneos o evitam,
ávidos que são ou que se tornaram, de história imediata.
Informação,
coleta dos fatos, descrição de processos extremos, contribuições de disciplinas
anexas ou vizinhas: tudo isto, mantido de pleno direito, a “poesia” domina,
controla, faz disso sua matéria. Mas ela recusa lhe emprestar sua forma é imagem: fruto de uma operação pessoal, cujas
regras heurística se fundamentam num sedimento de experiências mal comunicáveis
como tais, inexplicáveis, injustificáveis, aprisionadas nos limites.
Quando
o objeto é um texto, fundamentalmente o discurso critico constitui a glosa: uma
glosa ativa, que cria simultaneamente e por aí aquilo que ela explica,
desdobra, manifesta, vivifica, carrega-se para nós de perfumes e de sabores de
que temos necessidade para existir, restitui ao texto passado o potencial
erótico que necessariamente, como texto, a seu temos, ele retém.
A
beleza vem a mais, como uma graça. Mas da presença gera-se um prazer. E o
prazer é o mais alto valor do espirito, pois é ao mesmo tempo alegria e signo:
o signo de uma vitória de e sobre a vida, esta vitória que nos faz
humanos.
Comentário:
No
presente texto: Performance recepção leitura, de Paul Zumthor é abordado á
performance como o conhecimento do ouvinte espectador em uma situação de
enunciação. E a escrita que tende á dissimulá-la mas, na medida do seu prazer, fazendo
com que o leitor se empenha em restitui-la. A “compreensão” passa por esse
esforço. A performance é então um momento da recepção: momento privilegiado, em
que um enunciado é realmente recebido. Quando do enunciado de um discurso
utilitário corrente, recepção se reduz à performance. E a leitura se desenrola
sobre o pano de fundo do barulho de voz que a impregna. Para o homem de nosso
fim de século, a leitura responde a uma necessidade, tanto de ouvir quanto de
conhecer. Em seu texto Paulo Zumthor mostre é que a performance é uma forma de
leitura o que depende de sua recepção.
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