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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Performance recepção leitura.


Performance recepção leitura.
Paul Zumthor
Capitulo 1
Introduzir nos estudos literários a consideração das percepções sensoriais, portanto de um corpo vivo, coloca tanto um problema de método como de elocução critica. De saída, é necessário, com efeito, entreabrir conceitos exageradamente voltados sobre eles mesmos em nossa tradição, permitindo assim a ampliação de seu campo de referencia.
Muitas culturas através do mundo condicionam os aspectos não verbais da performance e a promoveram abertamente como fonte de eficácia-textual. Em outros termos, performance implica competência.
A performance se situa num contexto ao mesmo tempo cultural e situacional: nesse contexto ela aparece como uma “emergência”, um fenômeno que sai desse contexto ao mesmo tempo em que nele encontra lugar. Algo se criou, atingiu  a plenitude e, por ai mesmo, ultrapassa o curso comum dos acontecimentos.
A performance e o conhecimento daquilo que se transmite estão ligados naquilo que a natureza da perfomace afeta a que é conhecido. A performance de qualquer jeito, modifica o conhecimento. Ela não é simplesmente um meio de comunicação: comunicando ela o marca.
[...] o espaço em que se inserem uma e outra é ao mesmo tempo lugar cênico e manifestação de uma intenção de autor. A condição necessária à emergência de uma teatralidade performancial é a identificação, pelo espectador-ouvinte, de um outro espaço: a percepção de uma alteridade espacial marcando o texto. Isto implica alguma ruptura com o “real” ambiente, uma fissura pela qual, justamente, se introduz essa alteridade.
Assim percebida a performance não é uma soma de propriedades de que poderia fazer o inventário e dar a formula geral. Ela só pode ser apreendiada por intermédio de suas manifestações especificas. Ela partilha nisso com a poesia ( sem duvida a poética) um traço definidor fundamental.
Capitulo 2  performance e recepção
A maior parte das definições de performance põem ênfase na natureza do meio, oral e gestual.
Entendamos por cultura a pratica própria a um grupo humano em todos os mínios que implicam conhecimentos. Compreendida assim, a cultura constitui o fundamento da vida em sociedade e, inversamente, vida social implica necessariamente cultura.
[...] performance de signa um ato de comunicação como tal; refere-se a um momento tomado como presente. A palavra significa a presença concreta de participantes implicados nesse ato de maneira imediata. Nesse sentido, não é falso dizer que a performance existe fora da duração. Ela atualiza virtualidades mais ou menos numerosas, sentidas com maior ou menor clareza.
Não é menos verdade, no entanto, que toda leitura seja produtividade e que ela gere um prazer. Mas é preciso reintegrar, nesta ideia de produtividade, a percepção, o conjunto de percepções sensoriais. A recepção, eu o repito, se produz em circunstancia psíquicas privilegiadas: performance ou leitura.    
Não há algo que a linguagem tenha criado nem estruturado nem sistema completamente fechados; e as lacunas e os brancos que aí necessariamente subsistem constituem um espaço de liberdade: ilusória pelo fato de que só pode ser ocupado por um instante, por mim, por ti, leitores nômades por votação. 
O eu só importa pelo que ele denota: saber, que o encontro da obra e de seu leitor é por natureza estritamente individual, mesmo se houver uma pluralidade de leitores no espaço e no tempo.
A leitura é a percepção, em uma situação transitória e única, da expressão e da elocução juntas. O texto poético, no patamar de nossa cultura, composta sempre um  elemento informativo (salvo raras exceções). Ora, a informação assim transmitida pelo texto produz-se em um campo deitico particular.
Capítulo 3 performance e leitura
A leitura não é um ato separada nem uma operação abstrata: só há pouco tomamos consciência disso: a época na qual entramos não está mais em condições de nos ocultar esse fato. Em todos os horizontes se esboçam os movimentos de uma desalienação, a longo prazo, da palavra humana; movimentos que, de crise em crise, não cessam de superar os contrários. 
A “compreensão” que ela opera é fundamentalmente dialógica: meu corpo reage á materialidade do objeto, minha voz se mistura, virtualmente, à sua. Dai o  “prazer do texto”; desse texto ao qual eu confiro, por um instante, o dom de todos os poderes que chamo eu. O dom, o prazer transcendem necessariamente a ordem informativa do discurso, que eles eliminam depois.
A performance é ato de presença no mundo e em si mesma. Nela o mundo está presente. Assim, não se pode falar de performance  de maneira perfeitamente unívoca e há lugar para definir em diferentes graus, ou modalidades: a performance propriamente dita, gravada eplo etnólogo num contexto de pura oralidade; depois uma série de realizações mais ou menos claras, que se afastam gradualmente desse primeiro modelo.
Na leitura, em compreensão, a ação visual se orienta de vez para a decifração de um código gráfico, não para a observação de objetos circundantes. Para todo individuo alfabetizado tendo adquirido o habito de ler, a relação entre o significante e o significado é interiorizada, não transita mais pelo objeto.
O olho percebe uma fase gratificante contorcida em forma de rosa: simultaneamente ele olha a flor e lê a frase. A percepção do texto se desdobra. Da maneira mais banal, a maior parte dos poetas, hoje, imprime seus poemas distribuindo na pagina espaços vazios e palavras em uma ordem que é significativa, pois cria um ritmo visual, transformado o poema em um objeto. A leitura se enriquece com toda a profundeza do olhar.
Capítulo 4 o empenho do corpo.
Da performance à leitura, muda a estrutura do sentido. A primeira não pode ser reduzida ao estatuto de objeto semiótico; sempre alguma coisa dela transborda, recusa-se a funcionar como signo... e todavia exige interpretação: elementos   marginais, que se relacionam à linguagem e raramente codificados,  ou situacionais que se referem á enunciação.
Esse conhecimento “antepredicativo”  está na base da experiência poética. É por isso que o sentido que percebe o leitor no texto poético não pode se reduzir á decodificação de signos analisáveis: provém de um processo indecomponível em movimento particulares.
O corpo permanece estranho á minha consciência de viver. É o ambiente em que me desenvolvo. Os fatos corporais não são jamais dados plenamente nem como um sentimento, nem como uma lembrança: no entanto, não temos senão o nosso corpo para nos manifestar.
Nossos “sentidos”, na significação mais corporal da palavra, a visão, a audição, não são somente as ferramentas de registro, são órgãos de conhecimento. Ora, todo conhecimento está a serviço do vivo, a quem ele permite persevera no seu ser.  
A linguagem corrente, fora de toda ideia preconcebida do que é a “poesia”, emprega, ás vezes, a propósito de um texto literário, expressões tais como: esse poema ou esse romance, ou essa pagina me fala, me diz. 
Tais são os valores exemplares produzidos pelo uso de voz humana e sua escuta. Elas só se manifestam, de maneira fortuita e marginal, na cotidianidade dos discursos ou na expressão informativa; a poesia opera aí a extensão ao universal. Pouco importa que ela seja ou não entregue á escrita. A leitura torna-se escuta, apreensão cega dessa transfiguração, enquanto se forma o prazer, sem igual.
II a imaginação Critica.
O sentimento que, necessária e felizmente, temos do passado, esse sentimento que em geral cada um de nós lenta e laboriosamente adquiriu e afinou, esse sentimento nos pega pelo pé. É preciso sabe-lo, e dizê-lo. O passado se oferece a nos como uma mina de metáforas com a ajuda das quais , indefinidamente, nós nos dizemos.
A operação de todo historiador é da ordem da arte. Sem dúvida ela se manifesta mais quando se concentra em textos poéticos, objetos produzidos por uma formalização segunda e intencional, uma sobredeterminação da linguagem: por ali mesmo enraizando no que o ser humano possui de menos universalizável e de mais verdadeiro, entre os impulsos primordiais que nos fazem ser, cada um por si.
[...] A ciência parte de uma observação ; o saber, de uma experiência que falta articular em discurso: isto é, em testemunho, pois o saber procede de uma confrontação comovente com o objeto de um esboço de diálogo com o que ele tem de único.
[...] A ciência, nosso ciência, pretende, é verdade, trabalhar na ordem do necessário; em verdade, na falta de um projeto global ela se abandona ao acaso e, complementarmente, gera-o; desconfia todavia, como de produtos aleatórios, da arte e da poesia, das quais provém a única globalidade concebível, mas que não concerne a ela; a única necessidade verdadeira, mas que ela não saberia pensar. Entre as duas vertentes dessa contradição: nós, nossos textos e, desejemos, o amor que lhe trazemos. 
[...] Globalidade implica coesões mais frouxas, menos  convenção, menos relações causais, e um eixo duplo de polarização: em direção ao passado com o qual nos comprometemos, pesquisadores historiadores; e em rumo ao próprio ato pelo qual, neste momento, “passamos”.
O saber é um longo, lento sabor. Espontaneamente, nossos contemporâneos o evitam, ávidos que são ou que se tornaram, de história imediata.
Informação, coleta dos fatos, descrição de processos extremos, contribuições de disciplinas anexas ou vizinhas: tudo isto, mantido de pleno direito, a “poesia” domina, controla, faz disso sua matéria. Mas ela recusa lhe emprestar sua forma é  imagem: fruto de uma operação pessoal, cujas regras heurística se fundamentam num sedimento de experiências mal comunicáveis como tais, inexplicáveis, injustificáveis, aprisionadas nos limites.
Quando o objeto é um texto, fundamentalmente o discurso critico constitui a glosa: uma glosa ativa, que cria simultaneamente e por aí aquilo que ela explica, desdobra, manifesta, vivifica, carrega-se para nós de perfumes e de sabores de que temos necessidade para existir, restitui ao texto passado o potencial erótico que necessariamente, como texto, a seu temos, ele retém.
A beleza vem a mais, como uma graça. Mas da presença gera-se um prazer. E o prazer é o mais alto valor do espirito, pois é ao mesmo tempo alegria e signo: o signo de uma vitória de e sobre a vida, esta vitória que nos faz humanos.      


Comentário:
No presente texto: Performance recepção leitura, de Paul Zumthor é abordado á performance como o conhecimento do ouvinte espectador em uma situação de enunciação. E a escrita que tende á dissimulá-la mas, na medida do seu prazer, fazendo com que o leitor se empenha em restitui-la. A “compreensão” passa por esse esforço. A performance é então um momento da recepção: momento privilegiado, em que um enunciado é realmente recebido. Quando do enunciado de um discurso utilitário corrente, recepção se reduz à performance. E a leitura se desenrola sobre o pano de fundo do barulho de voz que a impregna. Para o homem de nosso fim de século, a leitura responde a uma necessidade, tanto de ouvir quanto de conhecer. Em seu texto Paulo Zumthor mostre é que a performance é uma forma de leitura o que depende de sua recepção.



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