Fichamento Performance
recepção leitura
( Paulo Zumthor)
Essa redução constitui um trabalho pedagógico útil e talvez
necessário mas, de fato (no nível em que o discurso é vivido) , ele nega a
existência de forma. Essa, com efeito, só existe na “performance”.(..) (p.34 ,
l. 9 á 12).
Embora historicamente de formação francesa, ela nos vem do
inglês e, nos anos 30 e 40, emprestada ao vocabulário da dramartugia, se
espalhou nos Estados Unidos, na expressão de pesquisadores como Abrams, Bem
Amos, Dundee, Lomax e outros. Está fortemente marcada por sua prática. Para
eles, cujo objeto de estudo é uma manifestação cultural lúdica não importa de
que ordem (conto, canção, rito, dança), a performance é sempre constitutiva da
forma. (..) (p.34 , l. 15 á 27)
Muitas culturas através do mundo codificaram os aspectos não
verbais da performance e a promoveram abertamente como fonte de
eficácia-textual. Em outros termos, performance implica competência. (p.38, l.
20 á 23)
A interpretação geralmente faz par com o relato mas não se
pode encontrar um sem o outro. Outros comportamentos ainda bastante mais raros,
possuem uma qualidade adicional : a “reiterabilidade” : esses comportamentos
são repetíveis indefinidamente, sem serem sentidos como redundantes. Esta
repetitividade não é redundante, é a da performance.(...) (p. 37, l. 9 á 16)
A posição de seu corpo no ato da leitura é determinada, em
grande medida, pela pesquisa de uma capacidade máxima de percepção.(..) (p.38 ,
l. 7 á 9)
A questão que se coloca é esta : em que medida pode-se aplicar
a noção de performance á percepção plena de um texto literário, mesmo se essa
percepção permanece puramente visual e muda, como é geralmente a leitura em
nossa prática, há dois ou três séculos ? (...)(p.39 , l. 3 á 7)
A primeira se fundamentava em uma constatação empírica,
indefinidamente feita e refeita : é que a performance é o único(...) (p.39 , l. 25 á 27)
(...)modo vivo de comunicação poética. (...) (p.40 ,l. 1)
Minha hipótese de partida poderia se exprimir assim: o que
na performance oral pura é realidade provada, é, na leitura, da ordem do desejo
(...) (p.40 , l. 19 á 21)
Consequências, em parte, da natureza terminológica :
procuramos nos entender sobre uma definição bem ampla do conceito, sem no
entanto desnaturá-lo ; consequências de natureza comparativa, por outro lado, porque é forçoso partir do
conhecimento rumo ao desconhecido. (...) (p.45 , l. 6 á 11)
A noção de performance ( quando os elementos se cristalizam
em torno da lembrança de uma presença) perde toda pertinência desde que a façamos
abarcar outra coisa que (...)(p.45 , l. 44 á 27)
Não o comprometimento empírico, agora a neste momento, da
integridade de um ser particular numa situação dada.(p.46 , l. 1 á 3)
A idéia base desse artigo é a de que o corpo do ator não é o
elemento único, nem mesmo o critério absoluto da “teatralidade” ; o que mais
conta é o reconhecimento de um espaço de ficção. (p.47 , l. 8 á 11)
Assim percebida a performance não é uma soma de propriedades
de que se poderia fazer um inventario e dar a formula geral. Ela só pode ser
apreendida por meio de suas manifestações especificas. Ela partilha nisso com a
poesia(e sem duvida a poética) um traço definidor fundamental.
É verdade que historicamente
o discurso ritual tem a tendência de pendurar em sua forma, de menos acessível
que o discurso não sacro aos fenômenos de movência e de variação. Mas não é
esse ponto (em nuances aproximadas) mas uma semelhança com toda a poesia_ com
nossa própria “literatura”? (p. 54, l.8 a 13)
O que a séculos denominamos “literatura” é uma manifestação
de existência do homem. Essa manifestação sobressai da ordem de atividades as
quais, pode se dá o nome de artísticas
naquilo que eles postularam a existência de um sistema organizado, de
expressão da comunidade; postulam uma ordem social que lhes garante a
existência e a duração: não é atoa que literatura e poesia vem sempre abandonar
essa ordem (e talvez o contrario) mas elas lhes comprometem a existência. (p.55 , l. 3 a 12)
Pode-se, portanto, considerar o uso linguístico de uma
comunidade humana como uma rede de práticas sendo por finalidade a comunicação
e a representação, porém estruturadas de tal modo que necessariamente uma entre
elas metamimética, vise a linguagem como os outros visam o mundo.
A pratica poética se situa no prolongamento deum esforço
primordial para emancipar a linguagem (
então vitualmente, o sujeito e suas emoções, sua imaginações, comportamentos)
desse tempo biológico. Esse esforço se realiza de modo diferente, segundo os
contextos culturais, pelo menos ai percebemos sempre essa vontade cega mas
radical, essa energia vital presente nos começos de nossa própria espécie e que
luta em nós para roubar nossas palavras a fugacidade dos tempos que a devora.
(p.57, l. 7 a 16)
Um encontro saboroso se produziu entre a linguagem poética e
essa técnica extraordinária da escritura que essa técnica encontrou em seu
caminho. (p.58, l.5 a 8)
A performance é então
um momento da recepção: momento privilegiado em que um enunciado é realmente
recebido. (p. 59, l. 22 a 24)
Pode-se hoje falar da recepção de Virgílio e de Homero; mas
nos situamos a uma tal distancia
temporal desses autores, que o termo performance não tem mais sentido em
relação a eles. É verdade que a tecnologia de nossos séculos de algum modo perturbou
o esquema o esquema que eu esboço assim: a introdução dos meios auditivos e
audiovisuais, do disco a televisão, modificou consideravelmente as condições da
performance. (p.60, l.4 a 11)
(... )Iser parte da
ideia de que a maneira pela qual é lido o texto literário é que lhe confere seu
estatuto estético; a leitura se define
ao mesmo tempo como absorção e criação, processo de trocas dinâmicas que
constituem a obra na consciência do leitor.( p.60, l. 19 a 24)
Não é menos verdade, no entanto, que toda leitura seja produtividade e que ela ere um
prazer, mas é preciso reintegrar nessa ideia, a produtividade, a percepção, o
conjunto de percepções sensoriais. P.61, l.8 a 11)
Ela a aproxima de algum modo da ideia de catarse proposta(
em um contexto totalmente diferente) por Aristóteles! Comunicador não importa o
que: com mais forte razão um texto( literário) Não consiste somente em fazer
passar uma informação, é tentar mudar aquele a quem se dirige; receber uma
comunicação é necessariamente sofrer uma transformação.(p.61, l.18 a 25)
O que produz a concretização de um texto dotado de uma carga
poética são, indissoluvelmente ligadas aos efeitos semânticos, as
transformações do próprio leitor, transformações recebidas em geral como emoção
pura, mas que manifestam uma vibração fisiológica, realizando o não dito do
texto lido, o leitor empenha sua própria palavra as energias vitais que o
mantêm. (p.62, l.13 a 20)
A fixação, o preenchimento, o gozo da liberdade, se produzem
na ideia de um face a face. Em presença desse texto no qual o sujeito esta ali,
mesmo quando indiscernível: nele ressoa uma palavra pronunciada, imprecisa,
obscurecida, talvez pela dúvida que
carrega em si, nós perturbadores procuramos lhe empregar um sentido. (p.63, l. 11 a 16)
O que nos fica é que essas variações históricas não
concernem ao essencial. Transmitida a obra pela voz ou pela escrita,
produzem-se entre ela o seu público, tantos encontros diferentes quanto
diferentes encontros e leitores. A única dissimetria entre esses dois modos de comunicação se deve
ao fato de que a oralidade permite a recepção coletiva. (p.65, l.3 a 10)
O que implicam tais proposições , no que concerne ao leitor
da “poesia”? Que leitura é a apreensão de uma performance ausente-presente; um
tomada da linguagem falando-se (e não apenas se liberando-se sob a forma de
traços negros no papel). A leitura é a percepção, em uma transitória e única da
elocução juntas. O texto poético no patamar de nossa cultura comporta sempre em
elemento informativo (salvo raras exceções. (...)(p.66, l. 9 a 17)
O julgamento não se apoiava em um modo de comunicação como
tal. A voz nõ esta ainda subordinada a emoção da escrita. (p.67, l. 24 a 26)
Sem dúvida es a explicação de um fato notável, que marca em
profundidade a mentalidade de nosso fim de século XX e se alicerça no lastre de
maior parte de nossas atividade culturais_ a começar pela leitura “literário”
essa nostalgia da voz que eu muitas vezes evoquei em meu introdução a poesia oral. Nostalgia
perceptível (para além do nosso interesse em se mesmo equivoco, pelo folclore e
pelas tradições arcaicas) na tomada de consciência desde Garcia Lorca, passando por Artaud, até a maior parte dos contemporâneos, da
importância central que convém atribuir a
voz em toda reflexão sobre a poesia. (p.68, l.11 a 23)
Tal é em nossa civilização, o meio natural de toda ”
literatura” ; poesia desde o instante em que ela se forma até aquele em que é “recebida”. A
leitura se se desenrola sobre o pano de
fundo de barulho de voz que a impregna. Para o homem de nosso fim de século, a
leitura responde a uma necessidade, tanto de ouvir quanto de conhecer. O corpo ai se recolhe. È uma voz que ela
escuta e ele reencontra uma sensibilidade que dois ou três séculos de escrita
tinha anestesiado, sem destruir. (p.70,
l.13 a 22)
A analogia é esclarecedora; e o modelo teatral em nossa cultura, representa toda poesia, na
própria complexidade da sua prática. (p.72, l.3 a 5)
Assistir a uma representação teatral embrematiza,
assim, aquilo que tende_ o que é
potencialmente _todo ato de leitura. É no ruído da arquipalavra teatral que se
desenrola esse ato, quaisquer que sejam os condicionamentos culturais.
(p.72, l. 14 a 18)
A civilização dita tecnológica ou pós-industrial esta em
vias (e já dissemos bastante) de sufocar em todo mundo o que subsiste das
outras culturas e de nos impor o modelo
de uma brutalidade sociedade de
consumo. (p. 73, l. 3 a 7)
“A performance é um ato de presença no mundo em si mesma.
Nela o mundo está presente. Assim não se pode falar de performance de maneira perfeitamente
unívoca e há lugar para definir ai em vários graus, ou modalidades: a
modalidade totalmente dita, gravada pelo etnólogo num contexto de pura
oralidade; depois uma serie de realizações mais ou menos claras, que se afastam
gradualmente desse primeiro modelo.
(p.79, l.9 a 16)
Somente a “poesia” resistiu;
a pressão das novas tecnologias acabou por faze-la entrar por sua vez no
modelo . ela não se esqueceu de que foi coagida a isto, mas deixou de reivindicar o antigo modo de
comunicação performancial, considerado desde então como próprio da “cultura
popular” e desvalorizado. (p.80, l. 2 a
8).
A performance dá ao conhecimento do ouvinte-espectador uma
situação de enunciação. A escrita tende a dissimula-la, mas, na medida do seu
prazer, o leitor se empenha em restitui-la. (p.83, l. 3 a 6)
NA medida em que a
poesia tende a colocar em destaque o significante, a manter sobre ele uma
significação continua, a caligrafia lhe restituiu, no seio das tradições
escritas, aquilo com que restaurar uma presença perdida. Sabe-se das formas
extremas com que ela tomou, as vezes do carmina fugurata da Antiguidade e da
idade Média até os caligramas de Apollinaire. (p.86, l 7 a 13)
Que o corpo seja assim comprometido na percepção plena do
poético, os antigos parece ter consciência disto, distinguindo entre as “partes”
da retórica pronunciatio e a actio; essas partes tinham por fim produzir
um efeito sensorial sobre o ouvinte. (p.88,
l. 17 a 21)
A percepção é essencialmente presença. Perceber lendo poesia é essencialmente
presença. Perceber lendo poesia é suscitar uma presença em mim, leitor. Mas
nenhuma presença é plena, não há nunca coincidência entre ela e eu. Toda
presença é precária, ameaçada. Minha
própria presença é tão ameaçadora como a
presença do mundo em mim e minha própria presença no mundo. (p. 94, l. 16 a 22)
Nossos “sentidos” , na significação corporal da palavra,
a visão, a audição não são somente as ferramentas de registro, são
órgãos de conhecimento. (p. 95, l. 7 a 9)
O pressentido não é necessariamente uma imagem: ele é
imaginável, ele tem a possibilidade de
produzir uma imagem. De qualquer maneira o virtual frequenta o real. Nossa percepção do real é frequentada pelo
conhecimento virtual resultante da acumulação memorial do corpo, eu o repito.
Desse modo, o virtual aflora em todo discurso.
No discurso recebido como poético , invade tudo. Esta ai no nível do
leitor, uma das marcas do “poético”. (p. 96, l. 6 a 14)
Essas expressões manifestam um sentimento confuso dos
veículos naturais existindo entre a linguagem e a voz, a vasta zona de qualidades comuns em que as duas se
encontram e que permite quando a designamos, incessantes resvalos semânticos,
voz se empregando por palavra ou o inverso. (p.96, l.23 a 28)
Todos os amantes da literatura fizeram a experiência desse
instante, em que, quando a densidade poética se torna grande, uma articulação
de sons começa a acompanhar espontaneamente a decodificação dos grafismos. (p.
99, l. 2 a 3)
A voz repousa no silêncio do corpo. Ela emana dele, depois
volta. Mas o silêncio pode ser duplo; ele é ambíguo: absoluto, é um nada;
integrado ao jogo da (...) (p.99, l. 21 a 23)
(...)voz, torna-se significante: não necessariamente tanto
como signo, mas, entra no processo de significância. Nesse lugar em que a voz se dobra nela mesma,
identifica-se com o sopro, de onde tantos outros simbolismos, recolhidos pelas
religiões; o sopro criador, animus rouhah;
a voz como poder da verdade. Historicamente todas as vozes se difundiram
pela predicação, portanto pela comunicação oral. (p. 100. L. 1 a 8)
Embora a manutenção de fragmentos dissociados das
terminologias antigas perturbe, em demasia, a perspectiva se desprende e
denuncia a irredutibilidade dessas mutações. Há uns quinze anos fala-se de pós “modernismo”
. Gostaríamos de tomar o termo com
ironia, pois ele remete, involuntariamente, as ambições dos renovadores do
século XII, reivindicando modernista
nostra! Mas a palavra importa menos do que aquilo de seu emprego é sintoma: a
necessidade de categoria que sejam no mesmo tempo (...)(p.110, l. 16 a 25)
(...)validas ideal e historicamente; o desejo de encontrar
uma alternativa para um sistema de raciocínio herdade ( é o que se pretende...)
dos gregos; a nossa busca acumulativa de pequenas coerências encaixadas como as
bonecas russas, em uma ilusão de totalidade; um ceticismo quanto a causalidades
e teologias9 mais a valorização do rizoma do que do cepo), o apelo ao
pluralismo metodológico, inclinando o a ambiguidade dos discursos construídos
sobre o mundo. O saber se reinterioriza,
graças a anulação dos “valores de
uso” ao retorno do sujeito, ao triunfo da individualização sobre a ideação do deslize sobre a ruptura. (p. 11, l. 1 a
12)
Só há uma relação entre o sujeito pesquisador e aquilo a
proposito de que ele se interroga. O “objeto” do medievalismo aparece assim
daqui em diante, como duplo: é, ao mesmo tempo e de maneira indissociável, um
acontecimento do passado e a, linguagem pela qual se conhece. (p.112, l. 5 a
10).
O que importa primeiro é a relação do desejo que nos
une, ao mesmo tempo que a liberdade coma
qual um apreende o outro, afasta-se dele, retoma-o. (p.112, l. 13 a 16)
Sem dúvida, ela se manifesta mais quando se concentra um
texto poético, objetos produzidos por
uma formalização segunda e intencional, uma sobre determinação da
linguagem: por ali mesmo enrizados no
que o ser humano possui de menos universalizável e demais verdadeiros, entre os
impulsos primordiais que nos fazem ser cada um por si. (p. 116, l4. a 20)
A ciência parte de uma observação; O saber de uma
experiência... que falta articular (como exprime nosso jargão) em discurso:
isto é, em testemunho, pois, (enquanto a ciência só se interessa pelo reiterável e só se apossou dele) o saber procede de uma
confrontação comovente com o objeto, de um esboço de dialogo com o que ele tem
de único. (p. 117, l. 12 a 19)
Se fosse necessário categorizar uma tal pratica, eu diria que nós pendemos
desde então para o lado da poesia. No sentido forte e trans-histórico da
palavra: relativo não as figuras da linguagem como tais, mas a uma maneira de
conhecer o mundo, uma modalidade eminente do saber. (p.123, l. 10 a 15)
Quando o objeto é um texto, fundamentalmente, o discurso critico constitui a glosa. Uma glosa ativa que
cria simultaneamente e por ai aquilo que ela explica, desdobra, manifesta,
vivifica, carrega-se para nós de perfumes e de sabores que temos necessidade
para existir, restitui ao texto passado o potencial erótico, que
necessariamente como texto, a seu tempo
ele retém. Na sua qualidade profunda,
esse discurso é o inverso do discurso teórico, que ele nega. Nem acertiva, nem categórica, a palavra que
inspira e sustenta a imaginação critica entende permanecer em aproximação
direta não sobre “o’ mundo, mas “sobre” este onde estamos, mundo que somos e que não é um mundo de
verdade, mas de desejo. (p.125. l. 16 a 23)
Relativamente ao sentido que, no fim do nosso discurso, vai
se investir na obra, esta age sobre nós como um emissor de mensagens baralhadas
pelos séculos e cuja decodificação (sempre aproximativa) implica minha
historicidade: operação não arbitraria, pois ela implica também consideração da
historicidade daquela obra. (p. 126, l. 13 a 19)
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