O espaço da pedagogia na investigação da recepção do
espetáculo
Biange Cabral
A diversidade e pluralidade
A
dificuldade da interação entre produção e recepção reside tanto em receber a
crítica quanto em realizá-la. O aspecto sensível que envolve a relação entre o
artista e a avaliação de seu trabalho não se restringe ao teatro profissional –
está presente na sala de aula, quer em disciplinas práticas ou teóricas. Existe
uma similaridade entre as questões postas à formação do espectador e à
avaliação do desempenho do aluno. (p.1)
A
questão é que o aluno aprendeu e não se ele aprendeu o que o professor ensinou.
Seguindo e mesmo princípio, no caso da formação do espectador, a pergunta seria
‘o que ele percebeu ou como ele leu a cena, e não se ele captou a intenção do
autor’. (p.1)
Professor
e diretor são ambos mediadores, entre produção e a recepção do espetáculo. Mas,
para que haja mediação é necessário explicar a concepção de ensino do trabalho
a ser desenvolvido em parceria, o que implica considerar a dimensão estética e política
do processo ou produto em foco. (p.1)
O
ator e o espectador, ao responde-lo, estarão visualizando o cruzamento dos
objetivos estéticos e artísticos do trabalho. Em processos de criação de médio
ou longo prazo, o diálogo entre encenador e atores (e outros parceiros)
acontece no decorrer da montagem. Em trabalhos em um contexto curricular
fragmentado, ou em oficinas de curta duração com expectativas de apresentação
dos resultados, esta concepção dificilmente é percebida. (p.2)
A
maioria dos desempenhos pobres no ensino de teatro se relaciona com a carência
de informações – as referências se esgotam, os alunos passam a se repetir, ou
desistem de participar. O mesmo acontece com relação a recepção; para ler a
cena, os espectadores precisam perceber o contexto e as circunstancias em que
ela ocorre. Além disso, há outra interferência na percepção e fruição artística
– ambas dependem também do gosto e experiências pessoais. (p.3)
Ao
focalizar o leitor, privilegiando o espectador, os argumentos sobre valores
antagônicos são abertos a todos os participantes no processo. Portanto,
considerar a recepção e a interpretação como processos baseados em valores
estéticos e políticos, traz consequências importantes para a formação do
espectador, uma vez que não se pode mais alegar uma natureza a-histórica do
conhecimento, nem contar com um modelo fixo a ser seguido para valorizar algo.
(p.3)
Se
as contradições estão no centro do engajamento ativo do espectador, este para
ser eficaz depende da capacidade dos participantes em decodificar o texto
coletivo. Uma tarefa é oferecida ao espectador e este deve possuir ou obter as
ferramentas para realiza-la. Esse modo ativo de decodificar convenções e signos
se aproxima do desafio e do estímulo proporcionado por um jogo. (p.3)
O
impacto cultural e a investigação da recepção
Pesquisas
sobre a recepção teatral, que realizei entre 1997 e 2006, revelaram que o
impacto cultural de um espetáculo está relacionado quer com sua ressonância com
o contexto social do espectador, quer com a transgressão das formas usuais e/ou
cotidianas do uso do espaço e texto. (p.4)
Ao
mediar a interação do espectador com a cena através de um questionário que
represente uma cartografia do campo a ser investigado, o professor/diretor está
por um lado, observando o que foi mais significativo para um determinado grupo
de espectadores, e por outro lado, ampliando o significado da cena ao redirecionar
o olhar destes espectadores. (p.4)
O
prazer por meio da experiência estética permeia um acontecimento que deve
provocar um deslumbramento, tirando o contemplador da percepção automatizada ou
habitual do cotidiano e o conduzindo à dimensão estética. (p.5)
Um
trabalho de criação, segundo Iser, tem dois polos: o artístico (o texto) e o
estético (a realização de texto pelo leitor). Mas, a obra de arte que dele
decorre, não é idêntica ao texto nem à sua realização pelo leitor – ela se
situa no meio das duas. Não pode ser idêntica porque cada texto tem uma parte
não escrita, os vazios do texto (seus gaps) que precisam ser preenchidos pelo
leitor. São eles que permitem as diferentes leituras de uma obra, o que requer
um enquadramento para que estas possam ser associadas. Mas, o enquadramento da
obra não implica identificar seu significado.
Assim
como o autor seleciona partes da realidade para incorporar ao texto, o leitor
seleciona partes do texto para priorizar na sua interpretação. O papel do
professor, além de identificar um texto aberto para o trabalho em grupo, está
também em dirigir a atenção dos participantes para este vazio do texto (mesmo
que ele resulte da criação coletiva do grupo) (p.5)
As
noções de horizonte de expectativas e vazios do texto permitem repensar a
recepção teatral no âmbito da pedagogia, uma vez que ampliam possibilidades
para compreender a relação entre a função da linguagem e o papel do leitor.
(p.6)
Pela
perspectiva do professor-diretor, a construção do questionário representa uma
mediação entre produção e recepção; ao delimitar o campo de observação, ele
oferece ao espectador uma cartografia do processo de investigação cênica. (p.6)
A
atuação do professor no espaço da investigação da recepção teatral é assim
caracterizada como mediação ao nível da configuração do horizonte de expectativas
do aluno e da sua interpretação, uma vez que a identificação dos vazios do
texto influenciará sua percepção. (p.6)
Na
fronteira entre a pedagogia e o teatro, o estudo da recepção permite explorar
formas de inserir o espectador no espaço espetacular e incluir sua voz na
construção da narrativa teatral. (p.6)
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