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domingo, 16 de novembro de 2014

Fichamento O espaço da pedagogia na investigação da recepção do espetáculo Bolsista: Ana Caroline de Jesus Santos

O espaço da pedagogia na investigação da recepção do espetáculo
Biange Cabral

A diversidade e pluralidade

A dificuldade da interação entre produção e recepção reside tanto em receber a crítica quanto em realizá-la. O aspecto sensível que envolve a relação entre o artista e a avaliação de seu trabalho não se restringe ao teatro profissional – está presente na sala de aula, quer em disciplinas práticas ou teóricas. Existe uma similaridade entre as questões postas à formação do espectador e à avaliação do desempenho do aluno. (p.1)
A questão é que o aluno aprendeu e não se ele aprendeu o que o professor ensinou. Seguindo e mesmo princípio, no caso da formação do espectador, a pergunta seria ‘o que ele percebeu ou como ele leu a cena, e não se ele captou a intenção do autor’. (p.1)
Professor e diretor são ambos mediadores, entre produção e a recepção do espetáculo. Mas, para que haja mediação é necessário explicar a concepção de ensino do trabalho a ser desenvolvido em parceria, o que implica considerar a dimensão estética e política do processo ou produto em foco. (p.1)
O ator e o espectador, ao responde-lo, estarão visualizando o cruzamento dos objetivos estéticos e artísticos do trabalho. Em processos de criação de médio ou longo prazo, o diálogo entre encenador e atores (e outros parceiros) acontece no decorrer da montagem. Em trabalhos em um contexto curricular fragmentado, ou em oficinas de curta duração com expectativas de apresentação dos resultados, esta concepção dificilmente é percebida. (p.2)
A maioria dos desempenhos pobres no ensino de teatro se relaciona com a carência de informações – as referências se esgotam, os alunos passam a se repetir, ou desistem de participar. O mesmo acontece com relação a recepção; para ler a cena, os espectadores precisam perceber o contexto e as circunstancias em que ela ocorre. Além disso, há outra interferência na percepção e fruição artística – ambas dependem também do gosto e experiências pessoais. (p.3)
Ao focalizar o leitor, privilegiando o espectador, os argumentos sobre valores antagônicos são abertos a todos os participantes no processo. Portanto, considerar a recepção e a interpretação como processos baseados em valores estéticos e políticos, traz consequências importantes para a formação do espectador, uma vez que não se pode mais alegar uma natureza a-histórica do conhecimento, nem contar com um modelo fixo a ser seguido para valorizar algo. (p.3)
Se as contradições estão no centro do engajamento ativo do espectador, este para ser eficaz depende da capacidade dos participantes em decodificar o texto coletivo. Uma tarefa é oferecida ao espectador e este deve possuir ou obter as ferramentas para realiza-la. Esse modo ativo de decodificar convenções e signos se aproxima do desafio e do estímulo proporcionado por um jogo. (p.3)

O impacto cultural e a investigação da recepção
Pesquisas sobre a recepção teatral, que realizei entre 1997 e 2006, revelaram que o impacto cultural de um espetáculo está relacionado quer com sua ressonância com o contexto social do espectador, quer com a transgressão das formas usuais e/ou cotidianas do uso do espaço e texto. (p.4)
Ao mediar a interação do espectador com a cena através de um questionário que represente uma cartografia do campo a ser investigado, o professor/diretor está por um lado, observando o que foi mais significativo para um determinado grupo de espectadores, e por outro lado, ampliando o significado da cena ao redirecionar o olhar destes espectadores. (p.4)
O prazer por meio da experiência estética permeia um acontecimento que deve provocar um deslumbramento, tirando o contemplador da percepção automatizada ou habitual do cotidiano e o conduzindo à dimensão estética. (p.5)
Um trabalho de criação, segundo Iser, tem dois polos: o artístico (o texto) e o estético (a realização de texto pelo leitor). Mas, a obra de arte que dele decorre, não é idêntica ao texto nem à sua realização pelo leitor – ela se situa no meio das duas. Não pode ser idêntica porque cada texto tem uma parte não escrita, os vazios do texto (seus gaps) que precisam ser preenchidos pelo leitor. São eles que permitem as diferentes leituras de uma obra, o que requer um enquadramento para que estas possam ser associadas. Mas, o enquadramento da obra não implica identificar seu significado.
Assim como o autor seleciona partes da realidade para incorporar ao texto, o leitor seleciona partes do texto para priorizar na sua interpretação. O papel do professor, além de identificar um texto aberto para o trabalho em grupo, está também em dirigir a atenção dos participantes para este vazio do texto (mesmo que ele resulte da criação coletiva do grupo) (p.5)
As noções de horizonte de expectativas e vazios do texto permitem repensar a recepção teatral no âmbito da pedagogia, uma vez que ampliam possibilidades para compreender a relação entre a função da linguagem e o papel do leitor. (p.6)
Pela perspectiva do professor-diretor, a construção do questionário representa uma mediação entre produção e recepção; ao delimitar o campo de observação, ele oferece ao espectador uma cartografia do processo de investigação cênica. (p.6)
A atuação do professor no espaço da investigação da recepção teatral é assim caracterizada como mediação ao nível da configuração do horizonte de expectativas do aluno e da sua interpretação, uma vez que a identificação dos vazios do texto influenciará sua percepção. (p.6)
Na fronteira entre a pedagogia e o teatro, o estudo da recepção permite explorar formas de inserir o espectador no espaço espetacular e incluir sua voz na construção da narrativa teatral. (p.6)








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